Para o JC Online.

Público apro­vou rein­ven­ção de Cyndi Lauper

É um desa­fio para uma can­tora pop bus­car uma reno­va­ção por um estilo que seus fãs pas­sam ao largo, como é o Blues. Cyndi Lauper deci­diu ousar e parece ter acer­tado nessa sua aven­tura em não se dei­xar ser engo­lida por um pas­sado glo­ri­oso, como tem feito mui­tos astros de sua época, que vivem de rumi­nar suces­sos. A ame­ri­cana de 57 anos jun­tou uma banda expe­ri­ente e segue ganhando a vida can­tando clás­si­cos de blues. No show que fez neste sábado no Recife, no Chevrolet Hall, os fãs deci­di­ram embar­car nessa nova fase.

Com o carisma de Cindy é pos­sí­vel ima­gi­nar que ela tivesse sucesso em qual­quer outro gênero, por mais orto­doxo ou esqui­sito à sua car­reira. Tocando fai­xas de seu mais recente disco Memphis Blues, ela con­se­guiu empol­gar o público que, mesmo sem saber a letra, seguiu à risca os dita­mes da can­tora, seja para bater pal­mas, repe­tir fra­ses do refrão, ou ape­nas se diver­tir. No pri­meiro bloco, ela pre­sen­teou os fãs com três hits anti­gos, per­di­dos entre as can­ções recen­tes. Destaque para a tema do filme Os Goonies, “The Goonies R Good Enough”, can­tado apa­ren­te­mente de forma impro­vi­sada, pre­sente no ima­gi­ná­rio de qual­quer pes­soas que viveu os anos 1980.

O pri­meiro bloco de músi­cas ser­viu para mos­trar que nessa nova fase, Cyndi ainda sabe, sim, como se diver­tir. Também mos­trou a vir­tu­ose de sua banda, que teve como con­vi­dada espe­cial a per­cus­si­o­nista Lan Lan, que já tocou com Cássia Eller e outros artis­tas bra­si­lei­ros. No segundo bloco, des­calça, deu a deixa que ali seria o momento de pura catarse e sau­do­sismo. Um pre­sente para quem apro­vou a rein­ven­ção da artista, mas que foi mesmo em busca de seu pas­sado repleto de hits. Um dos mai­o­res suces­sos, “Girls Just Want To Have Fun”, de 1983, se trans­for­mou numa música de 9 minu­tos, com direito a inter­lú­dios, solos e con­ver­sas com a banda. Correndo de um lado para o outro demons­trando vita­li­dade e boa forma para a idade, Cindy sol­tou ainda “Time After Time” (1983), “All Through The Night” (1984), e “Change Of Heart” (1986).

Já sozi­nha no palco, depois de agra­de­cer e de se des­pe­dir da pla­teia ao lado de sua banda, a can­tora can­tou uma ver­são mini­ma­lista, quase ‘a cap­pela’ de “True Colors” (1986), uma das músi­cas de maior sucesso da car­reira de Lauper. Terminou com men­sa­gens posi­ti­vas para os fãs, o que com­bi­nou com o momento mais emo­tivo do show. Cyndi parece não ter mudado nada nes­ses anos em que pas­sou de uma artista de sucesso mun­dial para alguém à mar­gem das para­das de sucesso. A voz, inclu­sive é a mesma de quando estava na casa dos 20 e se pin­tava como uma boneca. Com o rosto inchado fruto de suces­si­vas plás­ti­cas e vários qui­li­nhos a mais, ela ainda con­serva o mesmo carisma de quando estava no auge. Esse show no Recife, que dá iní­cio a uma turnê de Lauper pelo Brasil, mos­trou que ape­nas isso basta. E os fãs estão pron­tos para novas aven­tu­ras artís­ti­cas de Cyndi.

CERCADINHO - Já nem adi­anta bater nesta mesma tecla da fami­ge­rada área VIP nos shows do Recife. De como ela é um des­res­peito aos fãs que pagam ingres­sos caros para fica­rem pri­va­dos de um con­tato mais pró­ximo com o artista, etc. Nesse caso, a des­van­ta­gem para quem ficou fora do Front Stage foi ainda maior. Além do espaço reser­vado ser muito grande, o que dei­xava a pista comum bem dis­tante do palco, a apre­sen­ta­ção de Cyndi se pau­tou por uma apro­xi­ma­ção com o público. Não raras vezes ela des­cia pelas esca­das em frente ao palco, falava com a pla­teia, e só fal­tou ir para o meio do povo. Existir área vip em even­tos de música pop é um con­tras­senso, já que o gênero é anti­e­li­tista por natu­reza. A ques­tão que paira é saber se a artista sabia dessa divi­são sec­tá­ria dos fãs.