UM BECKETT QUE RENASCE
Relançado pela edi­tora Globo, Molloy com­prova a força lite­rá­ria de um autor cujo sucesso vem do excesso e da eco­no­mia de pala­vras
Por Fernando de Albuquerque

Reeditado pela Globo, Molloy, de , agora conta com reche­ado pre­fá­cio da tra­du­tora Ana Helena Souza, cro­no­lo­gia da vida do autor e com­pleta bibli­o­gra­fia de sua vasta obra. Ele, ao lado de Kafka, é um dos gran­des tra­du­to­res do mundo con­tem­po­râ­neo. O segundo era um fabu­lista que mos­trou a real con­di­ção de pesa­delo humano. Já Beckett viveu num escuro muito mais forte que o do pró­prio quarto, tal como Samsa. Sentiu de perto a longa pri­meira Guerra e vive­ria uma noite mais som­bria ainda durante a segunda Guerra da qual par­ti­ci­pou ao lado da resis­tên­cia fran­cesa durante o governo de Vichy.

Em Molloy o lei­tor pene­tra funda nas den­sas cama­das do pen­sa­mento de seu pro­ta­go­nista homô­nimo. Um sujeito que, agora, ocupa o qua­tro da mãe, loca­li­zado em parte alguma de uma vida supos­ta­mente real. E isso tal­vez seja o que mais decep­ci­ona os lei­to­res mais con­ven­ci­o­nais. Em Beckett não existe uma nar­ra­tiva con­ven­ci­o­nal, com per­so­na­gem, enredo e trama bem con­so­li­da­dos. Pelo con­trá­rio, a per­cep­ção é de que algo está sendo rumi­nado de forma lenta, pas­siva e, apa­ren­te­mente, é difí­cil deli­mi­tar o que seja. Existe ape­nas esse nar­ra­dor, na casa da mãe que mor­reu. Mas nada é muito claro. Como ele foi parar lá? Quem o levou? Ele não sabe e o pró­prio lei­tor jamais saberá. “Tudo se esfuma”, diz o livro. O texto parece ser taqui­gra­fado do pró­prio cére­bro, com fra­ses em staccato.

Em outro momento, a nar­ra­tiva parece aproximar-se a Kafka. Justamente quando Molloy é detido gra­tui­ta­mente por um poli­cial, a irre­le­vân­cia do exer­cí­cio arbi­trá­rio do poder parece se expor. Mas depois, nova­mente, essas apro­xi­ma­ções são fal­sas e não há mais nada de Kafka em Beckett. Liberado, esse sujeito que tem uma perna dura e uma bici­cleta que con­se­gue peda­lar só com a outra perna, a boa, fica feliz a ponto de gri­tar, de congratular-se com sua som­bra e a da bici­cleta pro­je­ta­das na parede. Até que fica claro que se trata tam­bém de uma defi­ni­ção do per­so­na­gem que passa pelo limite da pró­pria linguagem.“Estou ape­nas me dobrando as exi­gên­cias de uma con­ven­ção que exige que você minta ou se cale”, ele anota, ao final de um dis­curso a res­peito da inte­li­gi­bi­li­dade das palavras.

Entretanto, o romance é divi­dido em duas par­tes e, na segunda, o nar­ra­dor é outro. Intitulado Moran, ele é bem mais orga­ni­zado e metó­dico que o pri­meiro dei­xando tudo mais claro e mais evi­dente ao público. Pelo menos é o que ele quer fazer acre­di­tar. Porque logo fica claro que o fato de ser agente e estar encar­re­gado de se ocu­par de Molloy não explica muita coisa. A que orga­ni­za­ção per­tence? Quais são seus pro­pó­si­tos? Isso nunca ficará evi­dente. Aos pou­cos, essa apa­rente cons­tru­ção simé­trica e con­sis­tente tam­bém se esfa­rela e o lei­tor é lan­çado de novo nesse tor­tu­oso mundo labi­rín­tico que é uma mente em pro­cesso de enlou­que­cer. Haverá a ten­ta­ção, a certa altura, de apro­xi­mar Molloy de Moran. Achar que são a mesma pessoa.Mesmo que não sejam — e não são — o que fica claro é a impos­si­bi­li­dade de os nar­ra­do­res se expres­sa­rem, embora tenham a obri­ga­ção de fazê-lo.

A his­tó­ria que os dois — cada um à sua maneira — ten­tam regis­trar é a das idas e vin­das de Molloy, num vai-e-vem que alterna luga­res aber­tos e fecha­dos, a par­tir do apar­ta­mento de sua mãe. O livro caracteriza-se pelas ações dra­má­ti­cas que apre­senta, incluindo um caso de amor e um de morte. Mas a ver­da­deira ação, em se tra­tando de Beckett, está na pró­pria lin­gua­gem — ainda que seja a de comu­ni­car a inco­mu­ni­ca­bi­li­dade moderna. Contudo, é curi­oso obser­var que esse tipo de nar­ra­tiva frag­men­tá­ria aju­dou a reco­lo­car os roman­cis­tas nos tri­lhos da con­ci­são. O que vale na fic­ção de hoje é o avesso do pre­gado por Beckett, que não perde o posto de gênio.

MOLLOY
Samuel Beckett
[Globo, 264 págs, R$ 34,90]

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