SÉRIES DO BRASIL QUEREM SER GRANDES
Séries naci­o­nais tra­zem qua­li­dade de cinema para pro­du­ções tele­vi­si­vas
Por Raphaella Spencer

Investimentos de milhões de reais em pro­du­tos de fic­ção naci­o­nal não é mais só coisa de tele­no­vela do Projac. São cada vez mai­o­res os inves­ti­men­tos de empre­sas inter­na­ci­o­nais de tele­vi­são em par­ce­rias com as gran­des pro­du­to­ras bra­si­lei­ras de cinema para rea­li­zar séries nos for­ma­tos de grin­gas como Lost, CSI ou Six Feet Under.

Em maio, a FOX Channel exibe , minis­sé­rie em 4 capí­tu­los que aborda his­tó­rias poli­ci­ais base­a­das em casos que acon­te­ce­ram no Brasil. Com um inves­ti­mento de 200 mil reais por epi­só­dio e elenco com mais de 100 ato­res, a série foi rea­li­zada pela Monshoot Produções para a Fox International Channels. A minis­sé­rie é ins­pi­rada em uma idéia ori­gi­nal de Carlos Amorim (Comando Vermelho), Roberto D´Ávila e Newton Cannito com dire­ção de Michael Ruman, cine­asta pau­lista com vários curta-metragens no currículo.

Pouco a pouco a tele­vi­são bra­si­leira vai vendo cada vez mais pro­du­tos com qua­li­dade de cinema e que tam­bém explo­ram essa lin­gua­gem em suas pro­du­ções. São pro­je­tos com pla­ta­for­mas de cap­ta­ção, for­ma­ção de elenco, ilu­mi­na­ção e ela­bo­ra­ção de rotei­ros simi­la­res a rea­li­za­ção de uma obra cine­ma­to­grá­fica. A dife­rença é a segu­rança do finan­ci­a­mento inter­na­ci­o­nal, que dá con­di­ções com­ple­ta­mente dife­ren­tes das expe­ri­men­ta­das pelos rea­li­za­do­res bra­si­lei­ros que ainda depen­dem das leis de incen­tivo e adap­tam suas obras a isso.

A HBO Latin America GroupSM foi uma das pio­nei­ras na inje­ção de inves­ti­men­tos em pro­du­ção de séries com­ple­ta­mente naci­o­nais. A pri­meira foi Filhos do Carnaval, série com seis epi­só­dios exi­bi­dos em 2006, pro­ta­go­ni­zada por Jece Valadão e com dire­ção de Cao Hamburger (O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias, 2007) sua trama retra­tava o coti­di­ano dos bichei­ros cari­o­cas e como eles usam o car­na­val para lavar dinheiro. Inspiração direta em fil­mes como O Poderoso Chefão e séries como Os Sopranos. Depois veio , pro­ta­go­ni­zada por Marcos Palmeira e base­ada na obra de Rubem Fonseca. A série con­tou a his­tó­ria de um advo­gado do Rio de Janeiro, espe­ci­a­li­zado em resol­ver casos de chan­ta­gem e extor­são, envol­vendo prin­ci­pal­mente indi­ví­duos da alta soci­e­dade cari­oca com as cama­das mais bai­xas da soci­e­dade. A série foi pro­du­zida pelo estú­dio Conspiração Filmes com um orça­mento de 12 milhões de reais. Para men­su­rar o valor pode­mos com­pa­rar com a media naci­o­nal para a pro­du­ção de um longa-metragem de baixo orça­mento: o filme per­nam­bu­cano Cinema, Aspirinas e Urubus, 2006, cus­tou 2 milhões de reais.


Marcos Palmeira na super-produção Mandrake

Mas os altos inves­ti­men­tos das empre­sas inter­na­ci­o­nais não inti­mida os dire­to­res naci­o­nais nem padro­niza essas pro­du­ções. Prova disso é a par­ti­ci­pa­ção de um dos dire­to­res mais auto­rais da nova gera­ção do cinema bra­si­leiro, Karim Ainouz (O Céu de Suely), na pró­xima emprei­tada da HBO. Sua pri­meira incur­são na TV será como dire­tor e rotei­rista de Alice, pre­vista para ser exi­bida ainda esse ano. Um misto de crô­nica com aven­tura que conta o dia a dia de uma jovem de Palmas, Tocantis que se muda para São Paulo e é engo­lida pela con­tur­bada vida de uma metró­pole. A par­ti­ci­pa­ção de dire­to­res com­pro­me­ti­dos com sua obra como Karim Ainouz na rea­li­za­ção de pro­du­ções fru­tos de par­ce­rias inter­na­ci­o­nais só chama a aten­ção para a impor­tân­cia des­sas novas pro­du­ções para o desen­vol­vi­mento do mer­cado audi­o­vi­sual bra­si­leiro, onde inves­ti­men­tos mili­o­ná­rios ainda são dire­ta­mente rela­ci­o­na­dos com padrão nove­lesco. Padrão que a pró­pria Globo vêm ten­tando dis­so­ciar de sua ima­gem, levando para o ar pro­du­ções como o seri­ado Cidade dos Homens, pro­du­zido em par­ce­ria com a O2 fil­mes e anun­ci­ando ainda para esse ano a pro­du­ção de uma nova série cri­ada a par­tir do enredo do polê­mico Tropa de Elite.

O fato é que todo esse inves­ti­mento em pro­du­ção Latina não é parte de uma polí­tica filan­tró­pica de empre­sas ricas, muito pelo con­trá­rio, tal inves­ti­mento tem tido retorno garan­tido. A pro­du­ção mexi­cana Capadócia, série que retrata o coti­di­ano de um pre­sí­dio femi­nino de segu­rança máxima teve 6,46 pon­tos de audi­ên­cia na América Latina, número extre­ma­mente alta para um canal pre­mium. No México a audi­ên­cia da HBO subiu 500% no horá­rio. No Brasil, onde a série ainda está sendo exi­bida, o epi­só­dio piloto foi o segundo pro­grama mais assis­tido entre os canais de TV paga no horá­rio — levando a audi­ên­cia do canal a um cres­ci­mento de 275%.

Pelo visto o público com acesso aos canais pagos no Brasil e no resto da ame­rica latina terá cada vez mais opor­tu­ni­dade de assis­tir a tais pro­du­ções. Ganham os téc­ni­cos rea­li­zando pro­je­tos cada vez mais pro­fis­si­o­nais sobre temas inse­ri­dos em suas pró­prias rea­li­da­des e ganham os teles­pec­ta­do­res rece­bendo pro­je­tos mais rebus­ca­dos explo­rando o poten­cial ima­gé­tico do meio tele­vi­sivo. Em pleno século 21 não dá mais para subes­ti­mar o espec­ta­dor e sua capa­ci­dade de assi­mi­lar e se diver­tir com pro­du­tos bem aca­ba­dos. Afinal de con­tas rebus­ca­mento e qua­li­dade podem sim ser dire­ta­mente pro­por­ci­o­nais a entretenimento.

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