Imaginemos que Frida Khalo, o ícone da mulher con­tem­po­râ­nea offs­tream, vivesse nos dias de hoje. Óquêi, não é pre­ciso ima­gi­nar: as sobran­ce­lhas dese­nha­das e os pêlos faci­ais ausen­tes na ima­gem acima cum­prem a função.

Será que hoje Frida teria espaço para suas trans­gres­sões esté­ti­cas – aquele lance roots de usar ves­ti­dos tra­di­ci­o­nais mexi­ca­nos, pen­te­a­dos naïf e pêlos au natu­rel? Nunca sabe­re­mos. Afinal, ela não está mais viva para nos mos­trar se teria sucum­bido à esma­ga­dora pres­são dos fero­zes fashion advi­sors – os ditos experts que alar­deiam suas estrei­tas visões de ele­gân­cia de web­si­tes a rea­lity shows, com cons­tan­tes esca­las pelos tape­tes ver­me­lhos do mundo.

Talvez Frida nem che­gasse a ser cri­ti­cada por essa gente, pelo mesmo motivo que Björk (de novo) é quase sem­pre dei­xada em paz: ela foi tão pes­soal e absur­da­mente dis­tante das con­ven­ções que dela se espe­ra­ria qual­quer coisa. Mas com uma dife­rença fun­da­men­tal: con­tra­ri­a­mente a , Frida e não ape­nas são pro­du­to­ras de arte como tam­bém são arte nelas pró­prias (con­si­de­rando que nos últi­mos anos a pin­tora está mais viva do que quando em vida).

Mas se Frida caísse nas malhas vipe­ri­nas de per­so­nal sty­lists bem inten­ci­o­na­dos, que nor­mal­mente trei­nam a opi­nião pública para apre­ciar moda segundo os parâ­me­tros mais comer­ci­ais pos­sí­veis, tería­mos uma capa de Caras, e não de Vogue nos anos 40: Frida com cabe­los sol­tos em cas­cata, mode­la­dos em baby­liss; mis­tu­ri­nha nas unhas, batom pero­lado; sobrancelhas-feitas-buço-depilado; a coluna aca­bando de estra­ça­lhar num jus­tís­simo; e o pé doente num Manolo Blanik. Antes de ser ampu­tado, é claro.

Me per­gunto se as mes­mas mulhe­res que hoje ido­la­tram Frida do jeito que ela era con­ti­nu­a­riam adorando-a, caso ainda fosse viva e fiel aos seus pecu­li­a­res não-hábitos de beleza. Para mim é uma dico­to­mia estri­dente: noto que, mesmo nas mulhe­res mais livres e cri­a­ti­vas, o jul­ga­mento do belo ainda leva irre­me­di­a­vel­mente para Hollywood. Ou — ainda pior — se não a Hollywood, a um cen­tro onde todas as excen­tri­ci­da­des se repetem.

Então faze­mos uma mano­bra ines­pe­rada e para­mos em Warhol: “Everybody’s plas­tic, but I love plas­tic. I want to be plas­tic”.

Digo essas coi­sas por­que está tudo oh-tão-chato na Glamourama. Essas pes­soas das revis­tas têm acesso aos mes­mos melho­res tra­ta­men­tos e cirur­gias e spas e hair desig­ners e esti­lis­tas e sem­pre aca­bam que­rendo tudo, e sem­pre aca­bam pare­cendo iguais. Nós as admi­ra­mos uma a uma nas fotos do , mas quando acaba parece que só havia uma mulher (de longo) e um homem (de smo­king) ali. As pes­soas pas­sa­ram a gil­lette em suas pró­prias peque­nas lou­cu­ras e fica­ram sem nada para jus­ti­fi­car suas pró­prias impres­sões digitais.

Frida Khalo che­gou a se pare­cer com qual­quer outra mulher de sua época. É claro que não. Ela nunca cogi­tou ser outra coisa que não ela mesma. Pintar-se a si pró­pria na frente do espe­lho sem­pre foi melhor que pin­tar uma inter­pre­ta­ção de uma modelo. Seus auto-retratos não dei­xa­ram a menor dúvida sobre isso.


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[+] Joana Coccarelli é jor­na­lista, autora do blog Narghee-La e ide­a­li­za­dora do Coccarelli.art, cole­tivo de artis­tas, blo­guei­ros e escri­to­res. Escreve nesta coluna sobre esté­tica, design e moda.
joana@revistaogrito.com.

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