, A NOVA CALIFORNIA DREAMIN’
Nigéria des­banca Índia e EUA em ter­mos de pro­du­ção cine­ma­to­grá­fica e cria um nicho de iden­ti­fi­ca­ção esté­tica e comer­cial sui gene­ris
Por Isabella Valle

Do you dream Hollywood? Do you wanna feel the power of Hollywood? Todo gla­mour, graça e fama dos block­bus­ters ame­ri­ca­nos? É melhor come­çar a repen­sar. O grande boom da pro­du­ção cine­ma­to­grá­fica mun­dial agora tem outro rumo: a África, mais pre­ci­sa­mente a Nigéria. O país, situ­ado na África Subsaariana, pro­duz hoje, dis­pa­ra­da­mente, o maior número abso­luto de fil­mes. São cerca de 1,2 mil títu­los anu­ais! E a fór­mula não é lá muito pare­cida com as pro­pos­tas norte-americanas.

A Nigéria ultra­pas­sou até mesmo a Índia, a pri­meira rival a des­ban­car Hollywood no posto de maior pro­du­tora mun­dial. Bollywood, ou o cinema hindi (sedi­ado em Bombaim, atual Mumbai) deu o pon­tapé ini­cial nos anos 2000 em ter­mos de popu­la­ri­dade e ino­va­ção, dando des­ta­que a pro­du­ções mais bara­tas que visam à cul­tura local e des­ban­cando Hollywood em quan­ti­dade de fil­mes por ano, com base em uma indús­tria bas­tante lucrativa.

Mas, para che­gar ao topo, o cinema nige­ri­ano pas­sou por mui­tos altos e bai­xos na sua his­tó­ria recente. Com mais de 100 milhões de habi­tan­tes, a Nigéria é o país mais popu­loso da África. Antiga colô­nia inglesa, a nação se tor­nou inde­pen­dente em 1960, pas­sando por suces­si­vas dita­du­ras, na década de 70. Durante esse tempo, cerca de 300 salas de cinema pas­sa­ram para o con­trole do Estado, e, logo, o cir­cuito foi se per­dendo. Isso, somado à falta de iden­ti­fi­ca­ção cul­tu­ral com as pro­du­ções oci­den­tais, gerou uma perda da cul­tura ciné­fila no país. Só uma década depois é que o mer­cado vol­tou a res­pi­rar pau­la­ti­na­mente. Nos anos 80, fil­mes em VHS come­ça­ram a ser copi­a­dos e dis­tri­buí­dos de forma ama­dora nos locais públi­cos do país e algu­mas sali­nhas de exi­bi­ção de vídeo foram cri­a­das. A pro­du­ção era nar­ra­ti­va­mente fraca e feita com recur­sos precários.


1,5 mil fil­mes por ano, exi­bi­dos em DVD’s: indús­tria inteligente

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Em uma coisa, Nollywood e Hollywood, pelo menos, se pare­cem: a mas­si­fi­ca­ção. Na Nigéria, exis­tem apro­xi­ma­da­mente 300 dire­to­res, pro­du­zindo entre mil e 1,5 mil títu­los por ano, enquanto que Bollywood rea­liza metade disso; e Hollywood, em torno de 600 fil­mes. São milhões de DVDs cir­cu­lando pelo país. A cada semana, cerca de 30 novos fil­mes entram no mer­cado. O fatu­ra­mento do cinema nige­ri­ano é o ter­ceiro em escala mun­dial, com um mon­tante de US$ 250 milhões por ano.

Para enten­der o fenô­meno Nollywood, há um ponto-chave: a abo­li­ção do uso de pelí­cu­las. Como não são exi­bi­dos em salas de pro­je­ção tra­di­ci­o­nais, os fil­mes são pro­du­zi­dos em DVDs – antes em VCDs e VHS. Assim, é pos­sí­vel, com o custo ínfimo de 15 a 60 mil dóla­res, ban­ca­dos por par­ti­cu­la­res, pro­du­zir cerca de 20 mil cópias de cada filme e vendê-los nos locais públi­cos, além de exibi-los, cobrando uma entrada barata em peque­nas salas de exi­bi­ção e em algu­mas emis­so­ras de tele­vi­são. As capas são impres­sões sim­ples e de baixa qua­li­dade, assim como os car­ta­zes de divul­ga­ção. Essa dinâ­mica gera uma indús­tria inte­li­gente (de qua­li­dade sus­peita, mas pers­pi­caz). A peri­fe­ria do mundo criou arti­ma­nhas para fomen­tar uma pro­du­ção local que se auto-sustenta, movi­menta dinheiro e gera empre­gos. Um dado impor­tante: o cinema nige­ri­ano é o segundo maior gera­dor de empre­gos do país, per­dendo ape­nas para a agri­cul­tura. É o que impul­si­ona a eco­no­mia, junto ao petróleo.

Há uma dife­rença cru­cial, no entanto, em rela­ção à indús­tria norte-americana. É que os fil­mes fei­tos lá são tipi­ca­mente afri­ca­nos. Retratam a vida coti­di­ana dos afri­ca­nos. O ima­gi­ná­rio dos afri­ca­nos. São fei­tos na África, por e, a prin­cí­pio, para afri­ca­nos. São sucesso em Gana, Togo, Benin, Camarões, Quênia, Uganda, Níger, Gâmbia, Zâmbia, Sudão. São trans­mi­ti­dos por canais a cabo, que dedi­cam grande parte da pro­gra­ma­ção ape­nas para a exi­bi­ção dos fil­mes nollywo­o­di­a­nos – uns, como o Africa Magic, no ar 24h por dia em todo o con­ti­nente afri­cano. Alguns são fei­tos em lín­guas locais – iorubá, igbo, hauçá –, mas a grande mai­o­ria é rea­li­zada em inglês, o que per­mite um público maior ainda, faci­li­tando seu alcance para fora do con­ti­nente. Isso é essen­cial para uma popu­la­ção que sofreu uma diás­pora tão intensa, como a da Nigéria, a qual pos­sui sete milhões de emi­gran­tes, entre refu­gi­a­dos e clan­des­ti­nos, pelo resto do mundo. Nas comu­ni­dade nige­ri­a­nas dos EUA e da Inglaterra, os fil­mes são dis­pu­ta­dís­si­mos. Em Londres e Dublin, exis­tem salas de cinema da UCI (United Cinemas International) que reser­vam seções para as pro­du­ções nollywoodianas.


Sucesso: fil­mes de Nollywood são hits em toda a África

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É ver­dade que Nollywood é um cinema local que não almeja – ape­sar de estar em voga no mundo – com­pe­tir em gran­des fes­ti­vais inter­na­ci­o­nais ou espec­ta­do­res estran­gei­ros. São fil­mes arcai­cos, com áudio pés­simo, mon­ta­gens tos­cas e argu­men­tos estra­nhos à oci­den­ta­li­dade. Contudo, ali está a vida afri­cana que as gran­des salas mun­di­ais insis­tem em escon­der. Expressa da forma mais verdadeira.

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