R$ 1,99 (Foto: Wellington Carvalho/ Divulgação)

QUANTO VALE O ARTISTA BRASILEIRO?
No monó­logo , 99, reflete com humor e seri­e­dade sobre o Brasil
Por Thalles Junqueira

Chico Buarque lem­bra, em “Paratodos”, que a música pode ser tomada como remé­dio. O mesmo raci­o­cí­nio vale para o tea­tro, o cinema, a dança, as artes plás­ti­cas, o amor/humor. Por isso, no – Cena Baiana, mui­tos usuá­rios desse prin­cí­pio ativo saí­ram da peça R$ 1,99 for­ta­le­ci­dos pelo eli­xir de um palco nu bem iluminado.

O palhaço tra­gicô­mico Ricardo Castro, ator e autor de R$ 1,99, vai de Adão ao Cidadão, pas­sando pelo homem das caver­nas e por vários tipos urba­nos que ten­tam a sobre­vi­vên­cia na densa selva da cidade para, em vários momen­tos, vomi­tar os sapos que engo­li­mos todos os dias, des­po­vo­ando seu brejo esto­ma­cal de homem-palhaço: homem tipo brasileiro.

A idéia para o texto da peça sur­giu há nove anos quando Ricardo estava deci­dido a dei­xar o Brasil e que­ria fazer da sua última apre­sen­ta­ção no país, o desa­bafo de um ator can­sado de viver no sufoco para pagar as con­tas no final do mês. No palco, Ricardo que é tam­bém dire­tor, pro­du­tor, ilu­mi­na­dor, sono­plasta, cenó­grafo e contra-regra, diz que resol­veu acu­mu­lar todas as fun­ções para fazer um espe­tá­culo mais aces­sí­vel ao público. (A entrada da peça custa o seu título: R$ 1,99) “Resultado: me fodi!”. Se fodeu nada. A peça tornou-se um sucesso abso­luto de público, best sel­ler tea­tral já visto por mais de 600 mil pes­soas em diver­sas capi­tais do Brasil.

Em cena, Castro dis­cute o valor da arte no Brasil atra­vés do desa­bafo de um cida­dão diante de assun­tos como amor, sexo, ami­zade, polí­tica, jus­tiça, famí­lia, dinheiro e poder; sem­pre usando um tom crí­tico, ali­vi­ado por um humor pro­vo­ca­tivo e doses de poe­sia. “Quanto vale o artista bra­si­leiro?”, ele ques­ti­ona logo no começo da peça. Ricardo renova o dis­curso a cada apre­sen­ta­ção, de acordo com os assun­tos em debate na mídia e as novi­da­des do cená­rio polí­tico econô­mico e social no Brasil e no mundo.

Já no meio do espe­tá­culo, um celu­lar tocou na pla­téia. “Pode aten­der”, falou. “É isso mesmo, peça barata é assim, uma escu­lham­ba­ção! Pode aten­der!” E con­ti­nuou a cena. “Minha gente, o que é Joelma, hein? Como é que ela não tem labi­rin­tite? Parece que fumou um base­ado e foi pra feira da sulanca…E o marido dela se chama Chimbinha!”. O público, assim como em quase toda a apre­sen­ta­ção, dá gar­ga­lha­das. “Eu adoro piada de veado, mas agora vamos falar sério…”

O tom de voz do ator torna-se fúne­bre, muita gente ainda ri das últi­mas palha­ça­das sem per­ce­ber que a hora da brin­ca­deira ter­mi­nou. Ricardo, cer­cado por luzes no chão, informa dados esta­tís­ti­cos sobre cri­mes de homo­fo­bia no país. A cada infor­ma­ção, uma luz é apa­gada no seu entorno e o tom de voz torna-se mais forte, repe­tido a inter­va­los com cres­cente inten­si­dade, expres­sando a revolta que explode em grito: “Como é que esquece?!”. Mais uma série de fatos esca­bro­sos dos nos­sos tris­tes tró­pi­cos vem à tona, sem­pre acom­pa­nha­dos do berro indig­nado: “Como é que esquece?!”

Foi com um dis­curso pare­cido, apa­gando vela por vela, que Nara Leão, ou Maria Bethânia (que a subs­ti­tuiu), arre­ba­tava as pla­téias eufó­ri­cas do his­tó­rico Opinião, de Augusto Boal, que inau­gu­rou o show de música tea­tra­li­zado, em 1964. “Em 1950, mais de dois milhões de nor­des­ti­nos viviam fora de seus Estados natais. 10% da popu­la­ção do Ceará emi­grou. 13% do Piauí; 15% da Bahia; 17% de Alagoas! Carcará… Carcaráá… Carcarááá… Pega, mata e come!” Denunciava Nara/ Bethânia com esse mesmo cres­cente de inten­si­dade, nos tem­pos do tea­tro de par­ti­ci­pa­ção polí­tica, influ­en­ci­ado pelo enga­ja­mento pan­fle­tá­rio do CPC (Centro Popular de Cultura) da UNE e seus gri­tos de pro­testo. Mas isso foi há mais de 40 anos…

Ricardo Castro, nesse momento sério de R$ 1,99, faz uma movi­men­ta­ção cênica bem pare­cida com aquela rea­li­zada pelas can­to­ras em Opinião, apa­gando suas lan­ter­nas ao denun­ciar os cri­mes bár­ba­ros pra­ti­ca­dos no país, até mer­gu­lhar na escu­ri­dão do palco, no nevo­eiro da ilha Brasil “pai­rando eter­na­mente a meio milí­me­tro do chão real da América”, tão absurda é a his­tó­ria dessa terra. Porém, a brusca rup­tura com o que vinha apre­sen­tando até então deixa esse grito de desa­bafo arti­fi­cial demais, expresso em um argu­mento vaga­mente revoltado.

É como se um per­so­na­gem de Terça Insana (da qual Ricardo, por sinal, fez parte), de repente, fosse tomado por uma von­tade viru­lenta de mudar o mundo, dei­xando o humor pra mais tarde. “Como é que esquece?! Um pai que joga sua filha de ape­nas seis anos pela janela?”. Considerando que um Ricardo mais à von­tade falava com humor há pouco tempo atrás sobre o Padre voa­dor, a seri­e­dade com que aborda o Caso Isabela deixa a cena um pouco constrangedora.

Apesar disso, Castro, além de exce­lente ator, mos­tra no seu texto, mui­tas vezes ácido, às vezes pie­gas, que não foi engo­lido pela dita­dura do poli­ti­ca­mente cor­reto, pela jaula do humor que não ofende nada nem nin­guém. Isso con­fere à peça, ape­sar dos momen­tos sérios que não con­ven­cem, um ar de debo­che pre­ci­oso. R$ 1, 99 conta com um palco limpo, uma ilu­mi­na­ção pri­mo­rosa, um ator de pri­meira e um bom texto coxo, que vacila ao ten­tar tirar a graça de um humor ava­ca­lhado cons­truído com tanta competência.

[+] LEIA A COBERTURA DO FESTIVAL DE TEATRO BRASILEIRO: CENA BAIANA

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  • Francine Gonçalves

    Olá pessoal,estou pre­ci­sando do con­tato pro­fis­si­o­nal de Ricardo Castro,de pre­fe­rên­cia Telefone.
    Se pude­rem me enviarm,ficarei grata.
    Abraços.