QUEM TEM MEDO DE ?
Na mon­ta­gem de Fernando Guerreiro, o famoso texto de não impres­si­ona e aposta numa ousa­dia afe­tada
Por Thalles Junqueira

No cen­tro do palco há um Ford Landau ver­me­lho, cená­rio per­fei­ta­mente cabí­vel para cin­cos per­so­na­gens – qua­tro homens e uma mulher –, os quais, em meio a ques­tões filo­só­fi­cas sobre o sen­tido da vida, entre­la­çam suas vidas sem sen­tido e ini­ciam uma busca alu­ci­nada pelo con­sumo e pra­zer ime­di­a­tos: com­prar e foder. Foi sob o impe­ra­tivo des­ses dois ver­bos que a peça Shopping and Fucking, última atra­ção do Festival do Teatro Brasileiro – Cena Baiana, ente­diou boa parte do público que lotava o Armazém 14, onde foi apresentada.

Um tri­ân­gulo amo­roso for­mado por dois rapa­zes e uma mulher, um tra­fi­cante e um garoto de pro­grama com­põem um retrato “da gera­ção movida a ecs­tasy, car­tão de cré­dito, house music e sexo pro­mís­cuo”. Dentro do carro, eles apre­sen­tam his­tó­rias atra­ves­sa­das por ins­tân­cias comer­ci­ais, sexu­ais e sen­ti­men­tais num ciclo des­vai­rado de con­du­tas des­vi­an­tes, com­prando uns aos outros, rejei­tando as depen­dên­cias afe­ti­vas e recor­rendo ao dinheiro como anestesia.

Shopping and Fucking estreou em Londres, em 1996, e seu autor, Mark Ravenhill, inscreve-se na gera­ção de dra­ma­tur­gos pós-Tatcher, a “dama de ferro” que gover­nou a Inglaterra entre 1979 e 1990. A peça é con­si­de­rada ‘in-yer-face-theatre’, desig­na­ção que vem da expres­são inglesa ‘na tua cara’, pois cons­trói uma pro­posta cênica cho­cante que pre­tende agre­dir o espec­ta­dor, inci­tando refle­xões atra­vés de uma lin­gua­gem vio­lenta e inte­li­gente. O que se sente nessa mon­ta­gem de Fernando Guerreiro, no entanto, não é um soco no estô­mago em estilo artau­di­ano, mas o tédio de entrar e sair do espe­tá­culo sem ser atin­gido pelo exce­lente texto de Ravenhill.

Na pri­meira cena, Mark (Edvard Passos Miller), um depen­dente quí­mico em recu­pe­ra­ção, parece estar bêbado e é aju­dado pelos ami­gos Lulu (Jussilene Santana), e Robbie (Rodrigo Frota) para se aco­mo­dar no carro. No veí­culo, vomita e diz que tem a cabeça feita em merda. “Estou todo fodido”, com­pleta. Mais tarde, Mark paga a Gary (Emiliano D’Avila), um garoto de pro­grama de 14 anos que era abu­sado pelo padrasto, para lhe lam­ber o cu. Entre esses per­so­na­gens arra­sa­dos pela soci­e­dade de con­sumo, há a figura do tra­fi­cante Brian (Celso Jr.), um cara esqui­sito com pinta de per­so­na­gem de David Lynch.

Apesar dos freqüen­tes pala­vrões e das simu­la­ções de sexo, não há na peça as ousa­dias exi­gi­das por um texto tão vis­ce­ral. A nudez é sem­pre par­cial, os bei­jos não pare­cem ver­da­dei­ros e os pala­vrões são excla­ma­dos de maneira afe­tada. As atu­a­ções não con­ven­cem, pois não alcan­çam a amo­ra­li­dade dos per­so­na­gens com suti­leza, nem mer­gu­lham nes­ses tipos urba­nos de corpo inteiro. Nota-se, várias vezes, que os ato­res quando vão à mar­gem do cen­tro dra­má­tico, aban­do­nam seus per­so­na­gens para retomá-los depois, quando vol­tam a ocu­par o foco da ação. Assim, fica difí­cil não se ente­diar com a peça que vai assu­mindo pouco a pouco um ar maçante e can­sa­tivo. Apesar da força e agi­li­dade do texto, as atu­a­ções não impres­si­o­nam, dando uma sen­sa­ção de sim­ples ver­bor­ra­gia ao invés de con­fir­ma­rem a lin­gua­gem bru­tal e cho­cante que Ravenhill pro­põe. Um risco que a peça pode­ria ter assu­mido e que evi­ta­ria essa sen­sa­ção de tédio é a des­trui­ção da cha­mada quarta parede – aquela que separa o palco da platéia.

Um aspecto impres­si­o­nante na mon­ta­gem de Guerreiro, no entanto, é o cená­rio com­posto uni­ca­mente por um imenso carro ver­me­lho Ford Landau, sobre um meca­nismo que per­mite girá-lo em 360º de acordo com a movi­men­ta­ção dos per­so­na­gens. Além das por­tas, há a uti­li­za­ção do capô e do porta-malas, cri­ando um espaço cênico dinâ­mico e ágil que parece ter saído dos qua­dri­nhos de Frank Miller ou de um filme estilo noir. Sem dúvi­das a mon­ta­gem bai­ana acerta no cená­rio, na luz e no figu­rino, que é exce­lente, mas falha no elenco que ainda está longe de encon­trar os per­so­na­gens que recor­rem às dro­gas e ao sexo como força motriz de suas vidas ins­cri­tas sob o signo da tragédia.

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