A POPULAÇÃO DE
Por entre seus per­so­na­gens , autor argen­tino vai con­tando sonhos e desa­mo­res de gente comum
Por Germano Rabello
VOL. 2
Liniers (texto e arte)
[Zarabatana, 164 págs, R$ 39]

Existem cen­te­nas de per­so­na­gens em Macanudo, HQ do argen­tino Liniers, mas mui­tas vezes eles só apa­re­cem por uma tira e depois somem para sem­pre. Pessoas de nomes inco­muns, Marsílio, Graciliano, Sepúlveda. Estas tiras tem sem­pre idéias bem saca­das, via de regra mais ori­gi­nais do que as tiras que envol­vem a menina e seu gato (Enriqueta e Fellini, vol­ta­re­mos a eles mais tarde). Existem tam­bém per­so­na­gens secun­dá­rios que apa­re­cem com frequên­cia. “Oliverio, a azei­tona” é um dos melho­res. A vaca ciné­fila é muito boa tam­bém. O senhor que tra­duz os nomes dos fil­mes, então! Sem falar em dúzias ino­mi­na­das de pingüins e duen­des que são a fauna favo­rita do autor.

Bom, melhor ten­tar orga­ni­zar as coi­sas. Enriqueta e Fellini são por assim dizer, os per­so­na­gens prin­ci­pais da tira, os mes­tres de cerimô­nia que fre­quen­te­mente cedem seu espaço a outras cri­a­ções de Liniers. Uma menina e seu gato. E todos nós sabe­mos que uma cri­ança e seu ani­mal de esti­ma­ção é o for­mato mais tes­tado e apro­vado, mais old school para uma tira de qua­dri­nhos. Então, não é sur­presa para o grande fã de Schulz e do Charlie Brown, esse núcleo prin­ci­pal da tira soe como uma dilui­ção cha­ti­nha desse for­mato. Mas claro que se pode ser feito algo de bom com isso. O que não impede milha­res de fãs da tira de acha­rem que estou falando a maior bes­teira do século.

Vamos apro­fun­dar a aná­lise: existe esse aspecto meio anti­quado des­ses per­so­na­gens (quase) prin­ci­pais, con­vi­vendo com esta enxur­rada de per­so­na­gens que dizem um oi e vão embora para sem­pre – que é uma carac­te­rís­tica muito pre­sente nas tiras con­tem­po­râ­neas, um certo des­caso com os per­so­na­gens. Logo, Macanudo repre­senta um caso inte­res­sante de hibri­dismo des­sas características.

E isso tudo tem um clima. Liniers aposta em situ­a­ções insó­li­tas, com um humor fino, não agres­sivo… Saudável? Um con­tra­ponto a uma tira como Os Malvados, do André Dahmer. O humor de Liniers não veio pra ofen­der, veio pra encan­tar, fazer você dar um sor­riso, em paz. E isso é quase uma ofensa para estes tem­pos cíni­cos e niilistas.

Nessa brin­ca­dei­ri­nha, o argen­tino Liniers tá che­gando longe. Esta é a segunda cole­tâ­nea dele em ter­ras bra­si­lei­ras, pela edi­tora Zarabatana. E já foi anun­ci­ada pela edi­tora uma ter­ceira cole­ção das tiras. Um sucesso no mer­cado bra­si­leiro que é bas­tante inco­mum para as Hqs do seu país, ainda pouco divul­ga­das por aqui (com exce­ção de Quino e Maitena). A edi­ção é bem cui­dada, bonita, no melhor estilo da Zarabatana que tem feito um tra­ba­lho muito bacana com qua­dri­nhos alternativos.

NOTA: 8,0

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