O HOMEM DA CABEÇA DE REPOLHO
Herói às aves­sas, Gainsbourg foi um dos artis­tas mais vis­ce­rais a fazer da polê­mica e auto­des­trui­ção com­bus­tí­veis para sua obra; nos 20 anos da sua morte, o ícone ainda se mos­tra sedutor

Por Iara Lima
Colunista da Revista O Grito!

é um daque­les heróis às aves­sas que per­meiam o ima­gi­ná­rio popu­lar. Assim como o ame­ri­cano Orson Wells, o fran­cês filho de judeus rus­sos con­se­guia dis­pa­rar sua geni­a­li­dade gira­tó­ria em diver­sas dire­ções. E acer­tar em quase tudo em que mer­gu­lhava. No pró­ximo dia 02 de março, com­ple­tam 20 anos que o Homem da Cabeça de Repolho (título de uma de suas can­ções e um de seus ape­li­dos) pas­sou a ter como ende­reço o cemi­té­rio de Montparnasse, em Paris, vítima de um ata­que cardíaco.

Seja na música, no cinema, na foto­gra­fia, artes plás­ti­cas, atu­a­ção, na dire­ção de comer­ci­ais ou mesmo em sua vida amo­rosa, Gainsbourg é dono de uma obra rele­vante e irre­qui­eta que vale ser con­fe­rida pelas gera­ções que não tive­ram a opor­tu­ni­dade de conhecê-lo. Entre um disco, um filme e um novo amor, uma vida de polê­mica e auto­des­trui­ção, cigar­ros e bebi­das, intensa como ele pró­prio. Em seu túmulo, em vez das tra­di­ci­o­nais flo­res, os fãs depo­si­tam maços de cigar­ros Gitanes, sua marca favorita.

Em uma das várias bio­gra­fias que ver­sam sobre sua vida, a autora Sylvie Simmons o des­creve como “um extro­ver­tido tímido, um rea­lista sur­real, um ico­no­clasta que ansi­ava por tornar-se ele mesmo um ícone, um homem que podia beber com poli­ci­ais num dia, assis­tir a fil­mes por­no­grá­fi­cos com Dali no outro, fazer amor com algu­mas das atri­zes mais belas do mundo (sem jamais dei­xar que elas o vis­sem nu) e mor­rer soli­tá­rio em sua cama depois de uma vida inteira de auto-abuso abso­lu­ta­mente heróico, ou pelo menos incon­tes­ta­vel­mente artístico”.

O can­ci­o­neiro de Gainsbourg é vis­ce­ral. Pra quem ainda não somou o nome à figura e à obra, ele é mais conhe­cido no Brasil (e no mundo inteiro) pela quase inde­cente “Je T’aime…moi non plus”, um dueto com Jane Birkin, musa da con­tra­cul­tura e que seria sua esposa e mãe da não menos famosa atu­al­mente atriz e can­tora Charlotte Gainsbourg.

Seja no Rock, Reaggae, chan­son e jazz, sua dis­co­gra­fia conta com 22 dis­cos lan­ça­dos em vida e sua com­po­si­ção pro­fí­cua pode ser con­fe­rida nas vozes da pró­pria Birkin, de Brigitte Bardot (outra de suas con­quis­tas amo­ro­sas), Catherine Deneuve, France Gall, Juliette Gréco, Françoise Hardy, Isabelle Adjani e Vanessa Paradis.

Sempre impre­vi­sí­vel e polê­mico, Gainsbourg é para a nação fran­cesa é o que pode­ría­mos com­pa­rar com o Chico Buarque em ter­ras bra­zu­cas: sua poe­sia (social ou afe­tiva) encon­tra os mais diver­sos per­so­na­gens. Confira algu­mas de suas prin­ci­pais obras:


Du Chant à la Une (1958), o primeiro disco de Serge tem como destaque Le Poinçonneur de Lilas. Aqui, Gainsbourg canta em primeira pessoa a rotina de um perfurador de bilhetes que trabalha no metrô, o homem por quem se passa e não se olha, uma narrativa aflita de um homem que vive sem a luz do sol a ‘fazer buracos’ (trou = buraco). A música culmina com a violência urbana na qual o personagem termina sendo perfurado e indo parar em outro grande buraco.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=HsX4M-by5OY[/youtube]


L’Étonnant Serge Gainsbourg (1963) é o quinto disco do artista, álbum que marca a sua des­pe­dida do jazz e sua entrada (não-definitiva), no Rock’n Roll. Simples e direta, des­ta­ca­mos “Chez Le Yé-Yé”, música que é com­posta ape­nas de voz e violão.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=kovVRpCAseo[/youtube]


Gainsbourg Percussions (1964) No disco, Gainsbourg passeia sobretudo pela percussão de matriz africana. Recomendamos ‘Couleur Café’, música que fala sobre uma bela mulher de cor café e sua sensualidade ao dançar.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=NDOk6nu9udo[/youtube]


Initials B.B (1968) – tal­vez uma das melho­res obras de Gainsbourg, o álbum marca sua par­ce­ria com Brigitte Bardot (daí o nome do disco) e can­ções que brin­cam com as ono­ma­to­peias. O disco é com­posto de várias péro­las como a pró­pria “Initials B.B”, “Ford Mustang”, “Comic Strip” (uma home­na­gem aos qua­dri­nhos), “Doctor Jekyll et Monsieur Hyde” e “Qui est ‘in’, qui est ‘out’”.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=NuZklVrHspM[/youtube]


Jane Birkin/ Serge Gainsbourg (1969) – Marca a entrada de Gainsbourg no estrelato internacional com a famosa “Je t’aime...moi non plus”. Outras canções imperdíveis do disco são “Elisa” e “Les Sucettes” (Os pirulitos), canção que seria gravada por France Gall e que teria sido interpretada como a descrição de uma felação.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=O11yNxrG6SU[/youtube]


Vu de L’extérieur (1973)- ape­sar do álbum pre­ce­dente (L’Histoire de Mélody Nelson, 1971) ter rece­bido maior des­ta­que por seu sua pri­meira obra-conceito, eu des­taco a música “Je suis venu te dire que je m’en vais”, um ver­da­deiro poema de des­pe­dida de amor, forte e definitivo.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=–BTGqJmhow[/youtube]


Aux Armes At Caetera (1979) – aos 50 anos, Gainsbourg se rein­venta mais uma vez e sur­pre­ende com este álbum, cuja canção-chefe dá nome ao disco e nada mais é do que o hino fran­cês em ritmo de Reggae.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=gcH85MVzH_o[/youtube]

GALERIA SERGE GAINBOURG E JANE BIRKIN

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  • http://twitter.com/samdrade/status/176380942804455424 Sam Drade

    Engraçado, nunca tinha notado a seme­lhança entre o Serge Gainsbourg e o Chico Buarque http://t.co/eQChZJz2

  • http://twitter.com/samdrade/status/176368621474430978 Sam Drade

    O que é uma pes­soa “rea­lista sur­real”? É cada absurdo que eu leio por aí http://t.co/eQChZJz2

  • http://walrus.bloguedemusica.com Pedro Salgado

    Foi bom reler algo mais sobre um dos músi­cos que mais admiro. Gainsbourg era irre­ve­rente, ‘un pro­vo­ca­teur’ e acima de tudo genial. A sua arte per­du­rará por mui­tos mais anos. Parabéns pela recordação !

  • http://twitter.com/iara4444/status/39646062297890816 Iara Lima

    RT @paulofloro: Ótimo texto de @iara4444 sobre os 20 anos da morte de Serge Gainsbourg http://bit.ly/goibog

  • http://twitter.com/paulofloro/status/38994616413847552 pau­lo­floro

    Ótimo texto de @iara4444 sobre os 20 anos da morte de Serge Gainsbourg http://bit.ly/goibog

  • Carolina Diniz

    con­fundi Gainsbourg com Ginzburg e pas­sei a maté­ria inteira achando que o cara do queijo e os ver­mes era can­tor :S http://bit.ly/fQGzvK