SOBRE A FINALIDADE DAS COISAS
Autor argen­tino nos reme­mora o embate das clas­ses soci­ais e nos alerta sobre o real conhe­ci­mento sobre as pessoas

Por Fernando de Albuquerque
Da Revista O Grito!

RAIVA
Sérgio Bizzio
Tradução de Luis Carlos Cabral
[Record, 224 págs, R$ R$ 35, em média]

Qual a gênese da raiva e do ciume? Nem os mais tra­di­ci­o­nais psi­qui­a­tras ou estu­di­o­sos con­se­gui­ram res­pon­der. E, tal­vez, essa essa ques­tão não tenha res­posta mesmo. Deve fun­ci­o­nar enquanto os estu­dos mais sotur­nos sobre a mente humana. Todos nem um pouco expli­cá­veis. Apenas podem ser vis­tos, revis­tos e, por­que não, elen­ca­dos. Isso e muito mais pode ser con­fe­rido ao longo do livro Raiva do argen­tino Sérgio Bizzio.

Com o nome de José Maria, que, em si, implica em reden­ção, ele é um ope­rá­rio de cons­tru­ção civil na capi­tal argen­tina que se apai­xona pela dia­rista Rosa em um super­mer­cado. Os dois logo enga­tam um rela­ci­o­na­mento. Maria, no entanto, é um namo­rado obses­si­va­mente ciu­mento. Agride um homem que sus­peita dizer obse­ni­da­des a Rosa em plena rua.

O inci­dente gera uma rea­ção em cadeia e acaba pro­vo­cando a demis­são de José Maria, que mais uma vez se des­tem­pera, matando o capa­taz da obra. A par­tir daí, o romance do escri­tor e rotei­rista argen­tino dá uma gui­nada em dire­ção a um sus­pense sem fim. Maria se esconde em uma sala deso­cu­pada de man­são em que Rosa tra­ba­lha, sem que a moça ou seus patrões per­ce­bam. De seu escon­de­rijo, ele man­tém guarda sobre a amada, rouba comida, lê livros e observa os pro­pri­e­tá­rios da casa, uma famí­lia rica mas deca­dente. Assim, ele se con­verte num voyeur obses­sivo e nem um pouco pas­sivo. Ele volta a matar os pos­sí­veis rivais e inte­res­sa­dos em Rosa, se trans­for­mando num stal­ker peri­goso e extre­ma­mente auto referente.

A mágica que rodeia o romance não está no estilo ino­va­dor, nem na his­tó­ria retum­bante. Pelo con­trá­rio. Cenas de ciú­mes são vis­tas, todos os dias, por casais do mundo inteiro. Homens sao aco­me­ti­dos por aces­sos a todo ins­tante, mulhe­res come­tem cri­mes pas­si­o­nais hora a hora. E Bizzio ganha exa­ta­mente neste momento em que busca no ordi­ná­rio o que há meno usual. Quando traz à luz o relato daque­les que estão a nosso lado todos os dias, mas que, por des­cuido ou cos­tume, não damos a devida aten­ção. Quando elenca per­so­na­gens cor­ri­quei­ros e comuns, nos alerta para uma neces­si­dade indu­bi­tá­vel: observe melhor o outro!

O que Bizzio nos deixa é a neces­si­dade con­tí­nua de saber, exa­ta­mente, onde sus­pei­tar. Onde come­çar a real­mente des­con­fiar, quando se deve agir. Principalmente s o ditado do “cui­dado neces­sá­rio a cada dia” já não se aplica ao con­texto moderno…

Vale res­sal­tar que Sérgio Bizzio foi o rotei­rista de XXY. Ou seja, sabe envol­ver bem qual­quer pessoa.

NOTA: 7,0

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