Bom roteiro a ser­viço da causa mutante

Por Paulo Floro
Da Revista O Grito!

A dis­cus­são ime­di­ata que se segue após toda adap­ta­ção dos qua­dri­nhos para o cinema é a fide­li­dade à cro­no­lo­gia e como os per­so­na­gens são repre­sen­ta­dos na tela. No caso deste Primeira Classe, nada parece fazer muito sen­tido para o fã mais impli­cante. Mística cri­ada como irmã de Charles Xavier? O irmão de Ciclope, Alex Summers, como um dos pri­mei­ros mutan­tes? Sebastian Shaw mais velho que Magneto? Por outro lado, nunca o con­ceito ori­gi­nal da série cri­ada por Stan Lee ficou tão bem tra­ba­lhada nas telas. Por isso, sem fazer con­ces­sões a fãs, o longa torna-se um dos melho­res den­tro do seu gênero.

Leia o espe­cial sobre o filme no NE10

A come­çar pelo roteiro, os pro­du­to­res uti­li­za­ram a ori­gem do grupo no que eles têm de mais con­cei­tual. Os X-Men sem­pre foram uma pará­bola sobre a acei­ta­ção e o pre­con­ceito con­tra as mino­rias. Quando sur­gi­ram em 1962, eram os gays os prin­ci­pais espe­lhos do dis­curso con­tra a into­le­rân­cia. Lutando por um mundo que os hos­ti­liza, os mutan­tes seriam uma evo­lu­ção na espé­cie humana, o Homo Superior. No longa, essa ten­ta­tiva de ade­qua­ção à soci­e­dade está pre­sente em todos os per­so­na­gens, cada um tra­tando de modo bem par­ti­cu­lar, com maior deta­lhe para a Mística e Fera, que sofrem com as “defor­ma­ções” cau­sa­das pela muta­ção em seu corpo.

Como os mutan­tes ainda são des­co­nhe­ci­dos do resto do mundo na época em que o filme se passa, nos anos 1960, o pre­con­ceito está pre­sente entre eles pró­prios. É desse desejo de assu­mi­rem o orgu­lho de serem quem são que as ten­sões come­çam. É a ten­ta­tiva de expli­car a ori­gem da dico­to­mia entre a ide­o­lo­gia de Xavier, da coe­xis­tên­cia pací­fica e de Magneto, que acre­dita que a huma­ni­dade teme e tenta eli­mi­nar tudo o que não con­se­gue con­tro­lar, sem que isso res­vale para uma divi­são sim­pló­ria de bem con­tra o mal.

Na trama, pas­sada em 1963, um grupo de cons­pi­ra­do­res mutan­tes lide­ra­dos por Sebastian Shaw () deseja ini­ciar uma guerra entre EUA e União Soviética, para que eles pos­sam domi­nar o mundo pós-hecatombe nuclear. Em para­lelo, Erik Lehnsherr () ini­cia uma cru­zada de vin­gança con­tra seus car­ras­cos nazis­tas e conhece Charles Xavier () quando decide matar seu arqui­i­ni­migo Shaw. Esta nova fran­quia dos X-Men é cri­a­tiva ao pro­por novas saí­das na nar­ra­tiva além da conhe­cida piro­tec­nia dos block­bus­ters hollywo­o­di­a­nos. Com um jei­tão James Bond, o filme con­se­gue con­ven­cer como um estilo de espi­o­na­gem, aju­dado pela esté­tica ses­sen­tis­tas do visual colo­rido, pen­te­a­dos e rou­pas de época. Mais para frente, sur­pre­ende nova­mente ao con­se­guir tra­ba­lhar os dra­mas huma­nos do elenco prin­ci­pal. Em uma deter­mi­nada cena, Mística (a indi­cada ao Oscar Jennifer Lawrence) apa­rece nua para seu melhor amigo, Charles, e ini­cia um dis­curso de acei­ta­ção bem cora­joso para uma pes­soa que pode se trans­for­mar em quem quiser.

Os fil­mes ante­ri­o­res dos X-Men tive­ram como mérito popu­la­ri­zar os mutan­tes da Marvel para um público maior, mas são pro­du­ções ainda cheias de amar­ras. Muitas con­ces­sões foram fei­tas para que os fãs ficas­sem satis­fei­tos com a esco­lha dos inte­gran­tes mais famo­sos (Wolverine, Ciclope), num leque de opção que cami­nha na casa das cen­te­nas. No final, nenhum per­so­na­gem tinha um papel de fato rele­vante ou pôde ter a per­so­na­li­dade explo­rada na trama. Com pou­cas falas e muita ação, a tri­lo­gia ante­rior foi um sucesso. Nesta nova aven­tura, o pro­du­tor Bryan Singer, que co-escreveu o roteiro e foi pro­du­tor exe­cu­tivo, deci­diu recon­tar a ori­gem do grupo, indo até o iní­cio dos anos 1960.

Ele cha­mou o dire­tor (Kick-Ass) e esco­lheu os per­so­na­gens sem se pre­o­cu­par com a cro­no­lo­gia dos qua­dri­nhos nem com os tra­ba­lhos ante­ri­o­res dos mutan­tes na tela grande. Isso pos­si­bi­li­tou explo­rar uma his­tó­ria mais rica com ampla uti­li­za­ção de fatos his­tó­ri­cos, com foco maior na crise dos mís­seis em Cuba. A esco­lha dos ato­res tam­bém foi com­pe­tente, ali­ando inter­pre­ta­ções con­sa­gra­das como Kevin Bacon e a dupla de pro­ta­go­nis­tas, com jovens pro­mis­so­res, a exem­plo de Jennifer Lawrence. Somem-se a isso os incrí­veis cená­rios e os efei­tos espe­ci­ais, usa­dos sem his­te­ria, como as cenas finais de Magneto levan­tando um sub­ma­rino ou a trans­for­ma­ção de Emma Frost (January Jones) em diamante.

O mais fer­re­nho defen­sor da fide­li­dade ao roteiro ori­gi­nal vai enten­der que mais vale uma boa his­tó­ria do que um trans­po­si­ção lite­ral dos qua­dri­nhos para as telas. Já o público que não cos­tuma ler qua­dri­nhos verá que X-Men Primeira Classe não é mais um filme de super-heróis. Ainda bem. Com um bom roteiro, ainda que algu­mas gags pre­ju­di­que o ritmo, o sucesso de novos fil­mes do gênero será saber explo­rar o que de melhor cada mídia (TV, cinema, HQ) tem a oferecer.

X-MEN: PRIMEIRA CLASSE
Matthew Vaughn
Com James McAvoy, Jennifer Lawrence, Kevin Bacon, January Jones
[X-Men First Class, EUA, 2011]

Nota: 7,8 

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