TRANSGRESSÃO E CONSERVADORISMO
Pesquisadora colom­bi­ana reúne tra­ba­lho sobre os mean­dros e melin­dres da indús­tria por­no­grá­fica bra­si­leira no título Nas Redes do

NAS REDES DO SEXO

[Ed. Zahar, 239 págs]

Por Fernando de Albuquerque

Quem gosta de um bom filme , não ima­gina o que há por trás de tanto sexo, paus, boce­tas e esper­mam. Muito além do bom desem­pe­nho dos gara­nhões e do pró­prio gosto por esto­ca­das das mulhe­res, a rede movi­menta uma intrin­cada indús­tria que, no Brasil, per­ma­nece do âmbito daquilo que é intri­se­ca­mente clan­des­tino e não legal. É como se o feti­che do sexo sel­va­gem e sem limi­tes se esten­desse de forma peremp­tó­ria à vida real. Como se sem­pre hou­vesse um homem más­culo que­rendo devo­rar alguém per­dido na esquina de sua rua e como se uma mulher voraz e tesuda esti­vesse sem­pre dis­posta a uma transa em qual­quer lugar. O livro da soció­loga María Elvira Díaz-Benítez, Nas Redes do Sexo, fala exa­ta­mente dos “bas­ti­do­res do pornô brasileiro”.

Fruto de uma tese de dou­to­rado, o livro fala de todos os mean­dros da pro­du­ção de fil­mes pornôs. E não se detém somente aos fil­mes, a escri­tora, de ori­gem colom­bi­ana, vai fundo em sua pes­quisa entre­vis­tando desde os agen­ci­a­do­res, os ato­res e os dire­to­res. Ela viveu in loco todos os desa­fios de pro­du­ção de um filme deste gênero. Indo desde o pro­cesso de recru­ta­mento dos ato­res até a fina­li­za­ção e dis­tri­bui­ção do filme. Colocando o seu olhar não só nos fil­mes héte­ros, mas tam­bém nos pra­ti­ca­dos por transexuais/travestis e gays.

Apesar do tom refe­ren­cial, pois em mui­tos momen­tos o livro de María Elvira se apro­xima da repor­ta­gem, ela cons­trói uma nar­ra­tiva ainda muito pró­xima de sua tese. As refe­rên­cias bibli­o­grá­fi­cas no final da publi­ca­ção rea­fir­mam o tom de pes­quisa que ela deseja dar. Então o que vemos aqui é uma María Elvíra Díaz-Benítez, que é antro­pó­loga apon­tando os cami­nhos que per­cor­reu durante dois anos em São Paulo. E que uti­li­zou a meto­do­gia da obser­va­ção par­ti­ci­pante para per­cor­rer tudo que desejava.

Desempenho, em todas as suas nuan­ces cas­tas e por­no­grá­fi­cas é a palavra-chave dos capí­tu­los e é o que liga todos os elos da cadeia de pro­du­ção do pornô. O espec­ta­dor tem sede de desem­pe­nho, os ato­res e atri­zes têm sede de desem­pe­nho, assim como os dire­to­res. O filme eró­tico é a espe­ta­cu­la­ri­za­ção do sexo, feita tanto para quem carece de desem­pe­nho quanto para quem emula o que vê na tela.

Gays
As mulhe­res e os homens de fil­mes gays são, segundo a pes­qui­sa­dora, os prin­ci­pais alvos de recru­ta­mento, e são mais fre­quen­te­mente reno­va­dos neste mer­cado, enquanto os homens (dos fil­mes hetero) per­ma­ne­cem por mais tempo. Segundo ela os tra­ves­tis, são os des­ta­ques nas capas dos fil­mes e no pró­prio mate­rial publi­ci­tá­rio e isso gera um certo “des­gaste” na ima­gem do pro­ta­go­nista e é neces­sá­ria uma reno­va­ção maior dos ato­res nes­ses fil­mes cujo fio con­du­tor da nar­ra­tiva não está somente no pênis, mas sim nas bun­das, ânus, pelos e boca.

Em seu livro, María Elvira relata que nos fil­mes gays, a lógica é outra em se tra­tando da expo­si­ção dos cor­pos, pois os homens, tanto aque­les que fazem o papel de pas­si­vos quanto os ati­vos, têm o corpo inteiro exi­bido: rosto, cos­tas, náde­gas, braço, perna etc. Os ope­ra­do­res de câmera usam outras téc­ni­cas de cap­ta­ção da ima­gem, fazem ques­tão de mos­trar deta­lhes que têm poten­cial eró­tico como a dila­ta­ção dos mús­cu­los ou até as gotas de suor des­cendo pelo abdô­men. Eles acre­di­tam que é isso que espe­ram os con­su­mi­do­res de fil­mes gay, por­que pos­suem outro olhar.

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  • Rita de Cássia Souzas dos Santos

    Eu sou antro­pó­loga tam­bém e aca­bei de ler o livro Nas Redes do sexo para uma aula na USP no depar­ta­mento de antro­po­lo­gia e pre­ciso dizer que esse livro é mui­tís­simo mais sério do que apa­rece nesta repor­ta­gem, trata-se de uma etno­gra­fia pro­funda, pre­ci­osa, muito bem feita. Fernando de Albuquerque: você nao enten­deu nada

  • http://twitter.com/veiapop/status/85480494015328256 Veia Pop

    Bastidores da por­no­gra­fia no Brasil “Nas Redes do Sexo” => http://t.co/FpT0vYY (Via @revistaogrito)

  • http://twitter.com/paulofloro/status/85448903763296256 pau­lo­floro

    Livro revela os bas­ti­do­res do mer­cado pornô bra­si­leiro http://bit.ly/ilxeDt