E NUNCA MAIS ATIRAR LÍRIOS AOS ANJOS
, do , foi um dos expo­en­tes do punk, afun­dou no alcóol e na cocaína, e agora, morando a cinco minu­tos da praia, ainda quer movi­men­tar a cena independente

Por Paulo Marcondes
De São Paulo

Fábio Luiz Altro deve­ria ter um tem­pe­ra­mento forte, daque­las sici­li­a­nas que gri­tam no metrô por qual­quer coisa, pela sua des­cen­dên­cia ita­li­ana e pelo ar sério pela parte ori­en­tal que car­rega em seu san­gue. Mas parece que a coisa não é seguida tão à risca assim, ao menos não pra ele. Um dos pio­nei­ros do movi­mento no Brasil, Nenê Altro, como é conhe­cido, já viveu de tudo: mili­tou em diver­sos gru­pos anar­quis­tas na década de 1990, teve pro­je­tos musi­cais que pas­sa­ram do punk ao power­vi­o­lence, como o , pas­sou por uma triste fase jun­kie, quando morou na Cracolândia, lan­çou dois livros e mais de 50 dis­cos. Resumindo: despirocou.

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Nos mea­dos dos anos 1980, ainda na ado­les­cên­cia, Nenê pas­sou a ter con­tato com o movi­mento punk: “acho que foi com uns 14 anos, deve ter sido lá pra 84, 85… não, não 86”, lem­bra. Na sua época de mili­tân­cia anar­quista, prin­ci­pal­mente pela Juventude Libertária, mais ou menos nesse período, tam­bém pan­fle­tou na porta do Teatro Municipal, quando não estava de plan­tão no seu antigo trampo de bal­co­nista de far­má­cia. De lá pra cá, foram várias ban­das, inú­me­ros pro­je­tos, incluindo zines, folhe­tins, cole­tâ­neas, selo de disco, pro­du­tora de show e fes­ti­vais independentes.

Depois de ter tra­zido o Straight Edge para o Brasil, aca­bou o dei­xando ainda na década de 1990: “Meu rom­pi­mento com o Straight Edge foi uma briga pes­soal que acon­te­ceu ali no meio. E até então eu não tinha nada con­tra. Tanto que quando eu saí, con­ti­nuei acom­pa­nhando o movi­mento até 2004”, disse Nenê. O Straight Edge é um modo de vida ligado ao movi­mento punk que prega a abs­ti­nên­cia total do alcóol e outras dro­gas. Uma das ban­das pre­cur­so­ras por espa­lhar a ten­dên­cia foi o Minor Threat, além do Teen Idol e o Youth Of Today.

No seu período de envol­vi­mento com o punk, além de tra­zer a ideia de não beber den­tro do movi­mento, foi impor­tante para o nas­ci­mento do hard­core na década de 90. “No final dos anos 80 teve uma coisa muito bizarra em São Paulo. Quando come­ça­mos a pirar no Black Flag, Germs, Void, Ripcord, Larm, todas essas coi­sas que pas­sa­mos a ouvir pra cara­lho, os punks come­ça­ram a cha­mar a gente de meta­leiro. E pra ven­cer esse obs­tá­culo foi foda”, comen­tou Nenê Altro.

Após dei­xar de lado a ideia de não fumar, não beber, não usar droga e não comer nada de ori­gem ani­mal, Nenê Altro caiu num abismo, daque­les bem pro­fun­dos, envolvendo-se com dro­gas: “A droga é a pior merda que existe. Porque além de você aju­dar o car­tel, você se fode”, comenta Nenê. Além da cocaína, tornou-se alcóo­la­tra, viveu assim por 5 anos, mas já dimi­nuiu bas­tante, tanto que pediu uma soda limo­nada enquanto devo­rava umas asi­nhas de frango durante a entre­vista: “dimi­nuir o álcool foi mais difí­cil do que cor­tar a droga quí­mica. Porque o álcool te dá aquela sen­sa­ção de posso beber mais um pouco, mas não é assim, ele vem e te pega de uma vez”, complementa.

Nesta época, viveu muito ali pelo cen­tro de São Paulo, escre­veu Os Funerais do Coelho Branco e gri­tou his­te­ri­ca­mente con­tra os demô­nios que lhe ron­da­vam em 2005 no disco Lírios aos Anjos, do Dance of Days: “o Funerais repre­senta o modo que eu vivia na época, tanto que ele é meio sem pé nem cabeça, por­que eu vivia uma fase sem pé nem cabeça. É um livro sem começo nem fim, igual eram meus dias neste período”, reflete. Diz ele num tre­cho: “A gente cresce com a ideia de que tem que acre­di­tar em alguma coisa, mas não ima­gina que a maior cer­teza de nos­sas vidas é que essa coisa, qual­quer que seja ela, vai ser arran­cada da gente sem pie­dade. E é assim que a gente se torna adulto. Perdendo os sonhos”.

Com seu pro­jeto musi­cal que deu mais certo, o Dance of Days, lan­çou até agora 11 dis­cos, cada um abor­dando um assunto dife­rente, uma fase dife­rente, entre­tanto, com um mesmo pro­pó­sito, como falou Nenê: “O Six foi algo bem meu, o História, a gente brinca que é o ‘Pela Paz em Todo Mundo do emo’, por­que é um disco poli­ti­cão. O Coração de Tróia, é algo mais ner­voso que o A História Não Tem Fim, o Valsa é um disco de espe­rança, de vitó­ria, o Lírios, algo mais deprê, o Insônia, um disco per­tur­bado, eu não dor­mia nessa época, já o Dança das Estações é um álbum que sur­giu das sobras mara­vi­lho­sas das gra­va­ções do Insônia e o Disco Preto um grito que tive que dar sobre a fase que vivi, um disco de libertação”.

Hoje, Nenê Altro tem 39 anos, mora em São Vicente, do lado da praia, coisa de 5 minu­tos andando. Vive numa kit­net. Acha que pre­cisa mudar, que neces­sita de um cômodo a mais para fazer de escri­tó­rio e tocar mais pro­je­tos adi­ante e fazer muito mais coi­sas: “a gente (ele e a esposa Nicolle) tá que­rendo mudar, pegar um apê com 1 dor­mi­tó­rio, sei lá, algo pra fazer um escri­tó­rio, por­que tá foda (risos)”. Não bebe como antes, parou total­mente de usar cocaína, se afas­tou de um monte de gente do pas­sado. Mas, man­tém o vício cons­tante de sem­pre come­çar algum pro­jeto novo para ten­tar movi­men­tar uma cena que vive em xeque.

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* Paulo Marcondes é jor­na­lista e é um dos auto­res blog AltNewsPaper.

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