EM CRISE
Filme usa Havaí como metá­fora para mos­trar como per­so­na­gens estão deso­la­dos por den­tro enquanto vivem no paraíso

Por Paulo Floro

É muito fácil repou­sar no cli­chês e cur­tir a vida sem mui­tos ris­cos nem muito esforço. É essa a ideia que acre­di­ta­mos vigo­rar no Havaí, terra que auto­ma­ti­ca­mente remete à coi­sas boas, hula-hula e mulhe­res boni­tas. O dire­tor (o mesmo de Sideways) decide dar um cho­que em todos esses lugares-comuns logo de iní­cio ao mos­trar um clipe com ima­gens feias da ilha e a mulher do pro­ta­go­nista inter­nada em coma pro­fundo após um aci­dente de barco.

Payne deci­diu usar a ilha para falar de um mundo que repousa sobre um exte­rior muito bonito, mas que esconde maze­las e tris­te­zas como qual­quer outro lugar. inter­preta Matt King, advo­gado des­cen­dente de uma rai­nha nativa e de um colo­ni­za­dor que dei­xa­ram como herança milha­res de hec­ta­res de terra per­ten­cen­tes à então rea­leza do local. Envolto em uma nego­ci­a­ção de meio bilhão de dóla­res com a venda das ter­ras, ele pre­cisa lidar com os anseios de toda a famí­lia, já que é o único res­pon­sá­vel por gerir o negócio.

Se por um lado todos os fami­li­a­res fica­rão feli­zes pelo mon­tante de dinheiro, por outro a popu­la­ção deverá lidar com mais resorts num dos pou­cos locais ainda into­cá­veis do Havaí. Esse senso de res­pon­sa­bi­li­dade com o pas­sado é ape­nas um dos dile­mas que Matt pre­cisa lidar. Seu maior pro­blema é o rela­ci­o­na­mento com suas filhas e a mulher em coma. Alexander Payne fez uso de metá­fo­ras do arqui­pé­la­gos para mos­trar como todos estão fecha­dos em si mes­mos, pulando de ilha em ilha, mas sem neces­si­a­ri­a­mente che­gar à algum lugar.

Matt pre­cisa lidar com suas duas filhas com quem sem­pre teve pouco con­tato e com a reve­la­ção de que sua mulher, com quem vivia um casa­mento con­tur­bado, o estava traindo. Ele parte então numa busca pelo amante, homem que, de fato ela amava. O grande inte­resse do filme está em como o per­so­na­gem de Clooney resolve todas essas ques­tões e como tudo isso está ligado à natu­reza do local.

Apesar das crí­ti­cas de que está mais domes­ti­cado, este é um dos tra­ba­lhos mais inte­res­san­tes de Alexander Payne. Se em Sideways e Eleição ele pos­suía um texto mais cínico e cor­ro­sivo, em Os Descendentes, ele deci­diu explo­rar o paraíso do cená­rio como metá­fora para a deso­la­ção que os per­so­na­gens sen­tem por den­tro. É tam­bém como­vente na medida sem soar pie­gas. A cena em que Matt King dis­cute com sua mulher em coma no hos­pi­tal é, ao mesmo tempo ridí­cula e tocante.

O filme ainda tem sido muito acla­mado pelo con­junto de atu­a­ções. De Clooney, por enfim enfren­tar um papel em que não esteja em sua zona de con­forto como galã. E da reve­la­ção , que ficou com um dos papeis mais impor­tan­tes do filme e segu­rou bem a mis­são. É um daque­les fil­mes que são melhor apro­vei­ta­dos quando há entrega por parte do espec­ta­dor (para cho­rar à vontade).

OS DESCENDENTES
Alexander Payne
[The Descendants, EUA, 2011]
Fox Searchlight

Nota: 8,3

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