YOU’RE SO CUTE WHEN YOU’RE FRUSTRATED, DEAR
Nos iden­ti­fi­ca­mos com a : o dia-a-dia de jovens con­tem­po­râ­neos víti­mas da cul­tura pop

Por Dandara Palankof
Colunista da Revista O Grito!

Se existe um furo em minha modesta gibi­teca é o fato de que não tenho um mísero exem­plar da , assim mesmo, com ponto de excla­ma­ção com­pondo o nome. A mesma era o que se pode­ria cha­mar de revis­ti­nha, mas só ela só era dimi­nuta fisi­ca­mente falando. O con­teúdo era grandioso.

Leia Mais: Dandara
Dê um gibi de super-herói para uma menina

Apoie sua comic-shop local
A beleza agri­doce de The Wrong Place
Nada é into­cá­vel: o caso Before Watchmen

Basicamente, a Mosh! tra­zia qua­dri­nhos e rock n’ roll. Separados ou mis­tu­ra­dos, era isso que você encon­trava em cada uma de suas edi­ções. Com cer­teza li várias outras coi­sas inte­res­san­tes, entre his­tó­rias e entre­vis­tas de ban­das inde­pen­den­tes, mas o que real­mente mar­cou minha memó­ria foi a Menina Infinito.

A HQ é dese­nhada e rotei­ri­zada por Fábio Lyra e, basi­ca­mente, conta a his­tó­ria de Mônica: uma menina de 20 e pou­cos anos, um pouco acima do peso e um pouco neu­ró­tica, fã de rock alter­na­tivo e ver­ten­tes afins, da Amelie Poulan e de Calvin & Haroldo. Uma garota jovem, da minha gera­ção, des­sas que você encon­tra por aí aos montes.

Pois bem. O caso é que, guar­da­das as devi­das pro­por­ções, eu me enqua­dro nesse monte.

Então, a prin­ci­pal razão pra que eu me afei­ço­asse de cara pela Menina Infinito era por ver a mim e a alguns de meus ami­gos retra­ta­dos nas pági­nas de forma muito pró­xima a nossa pró­pria rea­li­dade: sim­ples­mente o dia-a-dia de jovens con­tem­po­râ­neos víti­mas da cul­tura pop. Todo esse papo de se rela­ci­o­nar, ir pra uma festa rou­bada, que­brar a cara, jogar con­versa fora no boteco, bri­gar com um amigo, pro­cu­rar um disco, sair da casa do cara com quem você divide o apar­ta­mento, amar Interpol…

(Não que todo mundo morra de amo­res pelo Interpol. Mas eu e a Mônica, sim.)

E mesmo que você não faça parte desse uni­verso rela­ti­va­mente par­ti­cu­lar, a lei­tura das his­tó­rias de Lyra é por demais agra­dá­vel. Seu traço, em preto e branco, é limpo e firme, com pouco uso de som­bras, cri­ando uma atmos­fera leve que casa per­fei­ta­mente com as coti­di­a­nas his­tó­rias tra­gicô­mi­cas pelas quais pas­sam seus per­so­na­gens – his­tó­rias essas que con­tam com um bom timing, inter­ca­lando bem os momen­tos de humor e aque­les mais tocan­tes. E con­se­gue encai­xar várias refe­rên­cias nas his­tó­rias, visual e textualmente.

Então, pois é. Nunca entendi por­que dia­bos eu nunca com­prei uma Mosh!, gos­tando tanto dessa série (se é que pode­mos cha­mar assim, visto que as his­tó­rias eram publi­ca­das na revista de forma inter­ca­lada) e das outras coi­sas que saíam nela. Já o fato de eu ter demo­rado para ter um exem­plar do álbum da Menina Infinito, publi­cado pela Desiderata em 2008 era o fato de que eu tava BEM lisa na época (quem nunca?). Acabei ganhando de pre­sente de uma amiga, com a dedi­ca­tó­ria “De fato, é a tua cara!”. Acho que foi jogo, ter esperado.

Pois bem. No álbum, temos qua­tro his­tó­rias iné­di­tas de Mônica e seus melho­res ami­gos, Pedro e Malu, sendo a pri­meira uma pequena intro­du­ção (diver­ti­da­mente meta­li­guís­tica) pra quem não conhece a per­so­na­gem. Nelas, explora as vidas de seus per­so­na­gens com muito mais espaço – não ape­nas no número de pági­nas, mas tam­bém no tama­nho das pági­nas, cerca de qua­tro vezes mai­o­res do que as que a Menina Infinito cos­tu­mava habi­tar. Assim, Lyra pode explo­rar melhor deter­mi­na­das situ­a­ções, sem pressa, desen­vol­vendo melhor as rela­ções entre a pro­ta­go­nista e seus ami­gos mais pró­xi­mos (pois ainda que a vida noturna e o rock n’ roll este­jam sem­pre lá, o foco das his­tó­rias são mesmo os sen­ti­men­tos e as rela­ções entre os per­so­na­gens, com seus altos e bai­xos), e tra­zendo ainda outros per­so­na­gens coad­ju­van­tes, de maior ou menor expres­são, para dar mais pro­fun­di­dade ao uni­verso que deseja retra­tar. Meu pre­fe­rido nesse álbum, no caso, é o Morrissey – é, ele mesmo.

(Apesar disso, cabe a res­salva de que o maior espaço físico tal­vez seja o res­pon­sá­vel pelas peque­nas falhas de pro­por­ção que ocor­rem quando os qua­dros são mais aber­tos. É per­cep­tí­vel, mas não atra­pa­lha o conjunto.)

Também sobra mais espaço para tra­ba­lhar o “refe­ren­ci­a­lismo”, seja em pôs­te­res nas pare­des dos cená­rios, seja nas cami­se­tas dos per­so­na­gens. Com rela­ção aos diá­lo­gos, elas acon­te­cem em pro­fu­são. Pessoalmente, acho as duas for­mas de uti­li­za­ção do recurso muito diver­ti­das, mas entendo quem vá achar a segunda um pouco for­çada vez ou outra. Mas basta man­ter a cabeça aberta e parar pra pen­sar que você deve conhe­cer uma ou duas des­sas pes­soas que, crias do boom midiá­tico, gos­tam de expor seu amor não pelo que con­so­mem enquanto bem mate­rial, mas enquanto infor­ma­ção. Conheço pelo menos duas pes­soas que cita­riam as benes­ses de terem assis­tido os fil­mes do George Romero e mais uma penca que cita suas epi­fa­nias com britpop.

Me pare­ceu, ape­sar das boas crí­ti­cas em vários sites espe­ci­a­li­za­dos, que o tra­ba­lho de Lyra pas­sou um pouco des­per­ce­bido do grande público. Uma pena. Apesar de outros nomes, como o pró­prio autor apon­tou em uma entre­vista, tam­bém faze­rem quadrinhos-crônica, pou­cos retra­ta­ram de forma tão cati­vante e com­pe­tente essa gera­ção bra­si­leira (pseudo) metro­po­li­tana fruto de mea­dos dos anos 1980. É um gibi que, com cer­teza, merece men­ção hon­rosa na pro­du­ção qua­dri­nís­tica bra­si­leira dos últi­mos anos, seja por suas qua­li­da­des enquanto obra, seja pela fun­ção de cap­tar e regis­trar o espí­rito de uma época que, como todos antes de nós, vamos nos lem­brar com saudade.

Curta nossa fan­page no Facebook! Siga tam­bém a Revista O Grito! no Twitter

_

Comentários

Ou comente por aqui:

  • Garota Sequencial: Old but gold #1 – As Crônicas da Menina Infinito http://t.co/u0Kq8I8s via @revistaogrito

    Juliana 07.08.2012 11h31