TODA MULHER SE FAZ DE “LÔCA“
O retorno de Love and Rockets ao Brasil

Por Dandara Palankof
Colunista da Revista O Grito!

Esses dias entrei no Banca2000, um dos sites mais anti­gos que conheço de venda de gibis. Não lem­bro nem o que estava pro­cu­rando, mas fiquei real­mente sur­presa quando dei de cara com um novo enca­der­nado de , uma das séries publi­ca­das no gibi inde­pen­dente ame­ri­cano Love and Rockets.

Leia Mais: Garota Sequencial
Dê um gibi de super-herói para uma menina
Apoie sua comic-shop local
A beleza agri­doce de The Wrong Place
Nada é into­cá­vel: o caso Before Watchmen

(Engraçado, por­que bus­cando dados mais pre­ci­sos da edi­ção, per­cebi que ela foi bem anun­ci­ada. E lan­çada no fim de julho! Eu sou uma nerd muito, mas muito dis­traída.) Pois bem. Se você não sabe do que eu estou falando, sem pro­ble­mas; a pri­meira vez que ouvi o nome Love and Rockets, a estra­nheza tam­bém foi grande.

Quem me apre­sen­tou o gibi foi um de meus men­to­res na lei­tura de HQs (sau­doso Flávio). Discutíamos sobre Estranhos no Paraíso (do qual ainda vou falar um dia, mesmo que pareça pro­pa­ganda des­ca­rada) e ele me saiu com essa: “‘Estranhos’ é uma cópia de Love and Rockets”. Eu teria ficado muito mais ofen­dida com a afir­ma­ção – que ele se apres­sou em dizer que não era depre­ci­a­tiva (ora veja) – se sou­besse do que ele estava falando.

Em Jaime Hernandez, tudo é diver­tido e sur­real: chi­ca­nos que cres­ce­ram na era da cor­rida espa­cial e pari­ram uma his­tó­ria sobre nove­las e punk, luta-livre e foguetes

Pois, como já fizera tan­tas outras vezes, Flávio me empres­tou alguns exem­pla­res de Love and Rockets que haviam sido publi­ca­dos no Brasil no começo da década de 1990. Já com atraso, pois a série teve iní­cio nos Estados Unidos em 1981, numa edi­ção ban­cada pelos pró­prios auto­res, os irmãos Jaime e Gilbert Hernandez. Funcionava mais ou menos assim: ape­sar de ter outras his­tó­rias cur­tas, a revista tinha basi­ca­mente duas séries: Palomar (de Gilbert) e Lôcas (de Jaime). De vez em quando, Mario, o “ter­ceiro Hernandez”, dava uma força aos dois.

Admito que Palomar é minha pre­fe­rida, mas con­ver­sa­mos sobre ela outro dia, pro­meto – a idéia agora é apro­vei­tar o ensejo do recém-descoberto lan­ça­mento e ten­tar fazer vocês, que­ri­dos lei­to­res, cor­re­rem atrás de Lôcas, que não perde para a série irmã em nada; os moti­vos de minha pre­fe­rên­cia são pura­mente emo­ci­o­nais, digamos.

(Uma pequena pausa ape­nas para dizer que a os irmãos Hernandez, pouco depois do lan­ça­mento, leva­ram L&R para aquela bele­zura de edi­tora cha­mada Fantagraphics e foram feli­zes para sem­pre – é ela a res­pon­sá­vel pela publi­ca­ção do gibi nes­ses últi­mos 30 anos…)

Não lem­bro quan­tas edi­ções eram, nem mesmo qual edi­tora as publi­cou. Lembro que o papel era jor­nal (como não ser? Já é impres­si­o­nante uma série indie norte-americana ser publi­cada no Brasil em 1991…), mas o for­mato era maga­zine – e poxa, alguém pre­cisa fazer mais revis­tas assim. Enfim, Lôcas me apre­sen­tou um mundo dife­rente de tudo o que eu tinha visto até então: a mis­ce­lâ­nea de refe­rên­cias da cul­tura norte-americana com a mexi­cana criou um cená­rio para as his­tó­rias de Jaime facil­mente reco­nhe­cí­vel, absur­da­mente diver­tido e muito sur­real. Em resumo: chi­ca­nos que cres­ce­ram na era da cor­rida espa­cial e pari­ram uma his­tó­ria sobre nove­las e punk, luta-livre e foguetes.

E por isso a revista se chama Love and Rockets: no fim das con­tas, eram as his­tó­rias das Lôcas as “prin­ci­pais”; o Love é (obvi­a­mente) refe­rên­cia a todas as des­ven­tu­ras amo­ro­sas vivi­das pelas duas per­so­na­gens prin­ci­pais, Maggie e Hopey – a pri­meira, mecâ­nica de fogue­tes (a-há!); a segunda, bai­xista de uma banda de punk-rock. Não que esse seja o tema de todas as his­tó­rias: as melho­res ami­gas, e às vezes aman­tes, lidam com várias outras ques­tões e tam­bém outros inu­si­ta­dos mora­do­res da fic­tí­cia cidade de Hoppers, como Izzy (escri­tora e “bruxa” da cidade), Vicki (tia de Maggie e ex-lutadora), Penny (a gos­to­sona esposa de mili­o­ná­rio) e H. R. Costigan (marido de Penny e mili­o­ná­rio lite­ral­mente chifrudo).

Ok: “ami­gas e, às vezes, aman­tes” real­mente é a pri­meira coisa que pode­ria levar você a pen­sar que Estranhos no Paraíso é um decal­que de L&R. A impres­são fica ainda mais forte quando você com­para as carac­te­rís­ti­cas das duas per­so­na­gens prin­ci­pais: Francine, de Estranhos no Paraíso, é alta, chei­nha (e com o peso sem­pre vari­ando), mais român­tica e um pouco neu­ró­tica – bem pare­cida com a Maggie. Katchoo (EnP) é bai­xi­nha, estou­rada, de lín­gua afi­ada – edgy, como Hopey (ape­sar da loi­rice da pri­meira). A rela­ção entre os dois casais tam­bém é bas­tante pare­cida. E não duvido que a série dos Hernandez tenha sido uma ins­pi­ra­ção para Terry Moore na com­po­si­ção de suas per­so­na­gens prin­ci­pais. Mas as seme­lhan­ças param por aí, pois as his­tó­rias são real­mente bem dife­ren­tes. E isso me esti­mu­lou ainda mais a con­ti­nuar lendo ambas.

Em uma época em que o número de séries de qua­dri­nhos pro­ta­go­ni­za­das por mulhe­res era ínfimo (não que hoje seja muito dife­rente, e com várias outras expres­sões artís­ti­cas, infe­liz­mente), ocu­pou um lugar vital ao dar voz a seu casal de pro­ta­go­nis­tas for­tes, inde­pen­den­tes, caris­má­ti­cas, ousa­das e sexu­al­mente liber­tá­rias (o elenco femi­nino de L&R, aliás, seja em Lôcas ou em Palomar, é com­posto de mulhe­res for­tes e que, de maneira ou e outra, se des­ta­cam em seu ambi­ente – arrisco dizer que é herança da cul­tura mexi­cana essen­ci­al­mente matri­ar­cal na qual foram cri­a­dos os auto­res). E se você não vê mais sur­pre­sas em acom­pa­nhar deter­mi­na­das séries nas quais os per­so­na­gens prin­ci­pais vão enve­lhe­cendo, saiba que muito disso se deve aos Bros. Hernandez, sendo o gibi dos rapa­zes um dos pri­mei­ros a mos­trar cla­ra­mente a pas­sa­gem dos anos.

Afora as des­ven­tu­ras amo­ro­sas (inclu­sive uma com a outras das per­so­na­gens prin­ci­pais), se há outra seme­lhança com EnP é na impor­tân­cia que Jaime dá às rela­ções entre seus per­so­na­gens, que se desen­vol­vem de forma muito orgâ­nica, muito humana; a pai­xão e os dese­jos de cada um os movem a todo momento, ora os colo­cando em con­flito, ora os reu­nindo; mas todos sem­pre com a cer­teza de que algu­mas des­sas rela­ções os man­tém anco­ra­dos ao que eles real­mente são.

E afora (basi­ca­mente) o con­texto inu­si­tado de wres­tling e fogue­tes, as outras situ­a­ções vivi­das pelos per­so­na­gens são comuns a quase todo jovem: a incer­teza do futuro, pro­cu­rar tra­ba­lho – sabendo o quanto eles são maçan­tes e o quanto vamos que­rer pedir demis­são, pra depois não saber o que fazer e pro­cu­rar outro trampo igual­zi­nho, achar que aquela banda um dia vai parar de se arras­tar numa van pra fazer uma turnê decente, pro­cu­rar lugar pra morar; casos con­ta­dos com sen­si­bi­li­dade e um timing humo­rís­tico impe­cá­vel. Tudo isso acon­te­cendo com um subúr­bio cali­for­ni­ano exa­lando os ares da cena punk enquanto cenário.

A arte de Jaime, toda em preto e branco, é pre­do­mi­nan­te­mente limpa – ainda que, no iní­cio, o uso de rachu­ras se mos­trasse comum, assim como as expres­sões das per­so­na­gens ten­diam a aproximar-se um pouco mais do rea­lismo; com o tempo, o qua­dri­nista foi aban­do­nando essa carac­te­rís­tica e seu traço foi ficando ainda mais leve e pró­ximo do car­tu­nesco. Com uma com­po­si­ção de página na maior parte do tempo clás­sica, o foco de Jaime é basi­ca­mente a pro­cura de ângu­los den­tro dos qua­dros; é artista indu­bi­ta­vel­mente talen­toso, mas que não faz ques­tão de gran­des expe­ri­men­tos de lin­gua­gem: seus dese­nhos ser­vem à história.

Outras edi­to­ras che­ga­ram a publi­car L&R no Brasil, tanto Palomar como Lôcas – a Via Lettera foi uma delas. Mas, ao que me parece, sem muita line­a­ri­dade; admito que não che­guei a acom­pa­nhar com aten­ção por­que, a esta altura, já tinha em mãos as edi­ções com­ple­tas que a Fantagraphics lan­çou das duas séries há alguns anos. Se você não teve a mesma opor­tu­ni­dade ou ainda não conhece a série, a hora é essa; e além de tudo, pelas crí­ti­cas que vi por aí, a Gal Editora fez um belís­simo tra­ba­lho neste pri­meiro enca­der­nado, cha­mado Lôcas: Maggie, a Mecânica; tanto na edi­ção quanto na tra­du­ção. Grande chance de ter na cole­ção uma das melho­res e mais repre­sen­ta­ti­vas his­tó­rias em qua­dri­nhos do cená­rio alter­na­tivo norte-americano.

PS: sim, a banda tem o nome por causa do gibi.

LOCAS: MAGGIE — A MECÂNICA
Jaime Hernandez
[Gal Editora, 152 págs, R$ 39,90]
Tradução: Maurício Muniz e Eliane Gallucci

Veja um pre­view da obra

_
* Dandara Palankof é a iden­ti­dade secreta da Garota Sequencial. Diz que sua rela­ção com qua­dri­nhos é des­tino, já que apren­deu a ler com um gibi do Cebolinha. Nerd orgu­lhosa, mar­vete e edi­tora do gibi Estranhos no Paraíso, publi­cado no Brasil pela HQM Editora.”

Curta nossa fan­page no Facebook! Siga tam­bém a Revista O Grito! no Twitter

_

Comentários

Ou comente por aqui:

  • Olá. Acabei aqui neste blog muito legal. Parabéns. Acontece que tento acom­pa­nhar Estranhos no Paraíso (que gosto demais), mas é difí­cil con­se­guir esses qua­dri­nhos inde­pen­den­tes. Nem sei até qual o número foi no volume 3. Se você sou­ber me diga, por favor. Outra difi­cí­lima, que ape­nas con­se­gui ler o 5 volume pela inter­net, foi os Passageiros do Vento, do Francês Borgeon. Se não lesse ainda, vale a pena, é muito, muito bom.

    Marc Alexander Marcos 01.02.2013 05h37