TODOS NÓS PLAGIAMOS, INCLUSIVE
“As obras cri­a­ti­vas podem ser uma espé­cie de pro­pri­e­dade, mas é pro­pri­e­dade que todos nós cons­truí­mos”, diz Kirby Ferguson

Do Baixa Cultura

Kirby Ferguson, dire­tor dos qua­tro capí­tu­los de “Tudo é Remix“, deu recen­te­mente uma pequena con­fe­rên­cia no TEDx com o título de “Embrace the Remix”.

Ali, Kirby falou sobre a natu­reza do remix e de como as ideias são sem­pre base­a­das umas nas outras, dando o exem­plo de nin­guém menos que Bob Dylan, que, por sua vez, seguiu o con­se­lho de seu mes­tre Woody Guthrie: “Importante é a letra. Não se pre­o­cupe com a melo­dia. Pegue uma melodia, cante alto enquanto eles can­tam baixo, cante rápido quando can­tam len­ta­mente e você tem uma nova can­ção.”

Em sua fala, Kirby põe lado a lado a ver­são de Dylan para músi­cas tra­di­ci­o­nais dos Estados Unidos, para que todos vejam que ele, assim como todos can­to­res folk, copiou melodias, transformou-as, combinou-as com novas letras que eram fre­quen­te­mente sua pró­pria mis­tura de mate­rial anterior.

Esteja com­bi­nado: Bob Dylan é, como todo gênio, um exce­lente copi­a­dor. Além das suas músi­cas, já fez isso em seus qua­dros (uma des­sas é ima­gem que abres este post) na série cha­mada “The Asia Series”, que foram “acu­sa­dos” de serem repro­du­ções de fotos conhe­ci­das de Henri Cartier-Bresson e Léon Busy.

E recen­te­mente vol­tou ao assunto quando do lan­ça­mento de seu último disco, Tempest – que pode ser bai­xado aqui. Questionado sobre as cita­ções ao livro Confessions of a Yakuza, de Junichi Saga, e ao poeta do século 19 Henry Timrod em sua obra, Dylan res­pon­deu que se não fosse por ele mui­tas pes­soas nunca teriam ouvido falar dos escritores.

“Todo mundo pode, menos eu”, queixou-se o bardo. “Para mim há regras dife­ren­tes.” Ele cha­mou seus crí­ti­cos de “wus­sies and pus­sies” (algo como “fra­cos e covardes”). Em 2003, o “Wall Street Journal” rela­tou que as letras do disco “Love and Theft”, de 2001, eram nota­vel­mente pare­ci­das com tre­chos da bio­gra­fia de Junichi Saga, lan­çada em 1995. Num dos tre­chos iden­ti­fi­ca­dos, por exem­plo, a letra de Dylan diz: “Não sou tão legal e cle­mente quanto pareço“; no livro, lê-se a frase: “Não sou tão legal ou cle­mente quanto eu pode­ria pare­cer“.

Continuou ele: “Estou tra­ba­lhando den­tro da minha forma de arte”, disse Dylan na entre­vista. “É sim­ples assim (…). Chama-se com­po­si­ção. Tem a ver com melo­dia e ritmo, e depois disso vale tudo. Você torna tudo seu. Todos nós faze­mos isso“. BINGO!

Veja abaixo a trans­cri­ção da fala de Kirby no TedX. Clique na ima­gem acima para assis­tir o vídeo, com a trans­cri­ção na lín­gua que quiser.

Vamos come­çar em 1964. Bob Dylan tem 23 anos, e sua car­reira está atin­gindo seu apo­geu. Ele foi nome­ado o porta-voz de uma gera­ção, e pro­duz can­ções clás­si­cas num ritmo apa­ren­te­mente impos­sí­vel, mas uma pequena mino­ria de dis­si­den­tes alega que Bob Dylan está rou­bando músi­cas de outros.

2004. Brian Burton, vulgo Danger Mouse, pega o “Álbum Branco” dos Beatles, o com­bina com “O Álbum Negro” de Jay-Z para criar o “Álbum Cinza”. “O Álbum Cinza” torna-se sen­sa­ção ime­di­ata na Internet, e a gra­va­dora dos Beatles envia inú­me­ras car­tas de inti­ma­ção apon­tando “con­cor­rên­cia des­leal e dilui­ção do valor da nossa propriedade.”

Agora, “O Álbum Cinza” é um remix. É mate­rial novo cri­ado com mate­rial antigo. Foi feito usando essas três téc­ni­cas: copiar, trans­for­mar e com­bi­nar. Assim se faz o remix. Pegamos músi­cas já exis­ten­tes, as divi­di­mos em par­tes, trans­for­ma­mos as peças, as com­bi­na­mos nova­mente, e temos uma música nova, mas esta é dis­tin­ta­mente com­posta de músi­cas antigas.

Porém esses não são os únicos com­po­nen­tes da remi­xa­gem. Acho que são os ele­men­tos bási­cos de toda cri­a­ti­vi­dade. Acho que tudo é um remix, e penso esta ser a melhor maneira de se con­ce­ber criatividade.

Bem, vamos de volta a 1964 e ouvir de onde ori­gi­na­ram as pri­mei­ras músi­cas de Dylan.Vamos compará-las lado a lado.

Muito bem, a pri­meira música que irão ouvir é “Nottamun Town”. É uma melo­dia popu­lar tra­di­ci­o­nal. E em seguida ouvi­rão “Masters of War” de Dylan.

Jean Ritchie: ♫ Em Nottamun Town, nin­guém olhava para fora, ♫

♫ nin­guém olhava para cima, nin­guém olhava para baixo. ♫

Bob Dylan: ♫ Venham senho­res da guerra, ♫

♫ vocês que cons­troem as gran­des armas, vocês que cons­troem os aviões da morte, ♫

♫ vocês que cons­troem as bombas. ♫

Kirby Ferguson: Muito bem, é a mesma melo­dia de base e estru­tura geral. A pró­xima é “The Patriot Game”, de Dominic Behan. Ao seu lado, ouvi­rão: “With God on Our Side” de Dylan.

Dominic Behan: ♫ Venham todos jovens rebeldes, ♫

♫ e alistem-se enquanto canto, ♫

♫ pois o amor a nossa pátria é algo poderoso. ♫

BD: ♫ Oh meu nome é nada, ♫

♫ minha idade sig­ni­fica menos ainda, ♫

♫ a terra de onde venho se chama Meio-Oeste. ♫

KF: O.k., então neste caso, Dylan admite que ele deve ter ouvido “The Patriot Game” mas se esque­ceu, então quando a música ficou em sua cabeça, ele sim­ples­mente pen­sou que era sua música.

A última: “Who’s Going To Buy You Ribbons”, uma outra can­ção popu­lar tra­di­ci­o­nal. Com esta ouçam “Don’t Think Twice, It’s All Right”. Esta é mais sobre a letra da música.

Paul Clayton: ♫ Não adi­anta sen­tar e sus­pi­rar agora, ♫

♫ que­rida, não adi­anta sen­tar e cho­rar agora. ♫

BD: ♫ Não adi­anta sen­tar e pen­sar por que, baby, ♫

♫ se você ainda não sabe, ♫

♫ e não adi­anta sen­tar e pen­sar por que, baby, ♫

♫ De nada isso adiantará. ♫

KF: O.k., agora, tem mui­tas assim. Estima-se que dois ter­ços das melo­dias que Dylan usou em suas pri­mei­ras músi­cas foram empres­ta­das. Isso é bem típico entre can­to­res da música folk. Este é o con­se­lho do ídolo de Dylan, Woody Guthrie.

“Importante é a letra. Não se pre­o­cupe com a melo­dia. Pegue uma melo­dia, cante alto enquanto eles can­tam baixo, cante rápido quando can­tam len­ta­mente e você tem uma nova can­ção.” (Risos) (Aplausos) E foi isto que Guthrie fez aqui, e tenho cer­teza que todos vocês reco­nhe­cem os resul­ta­dos. (Música) Conhecemos esta melo­dia, certo? Conhecemos? Na ver­dade não a conhe­cem. Ela é “When the World’s on Fire”, uma melo­dia muito antiga, neste caso apre­sen­tada pela Família Carter. Guthrie a adap­tou para “This Land is Your Land”. Então, Bob Dylan, assim como todos can­to­res folk, copiou melo­dias, transformou-as, combinou-as com novas letras que eram fre­quen­te­mente sua pró­pria mis­tura de mate­rial anterior.

Agora, direi­tos auto­rais ame­ri­ca­nos e leis de patente vão con­tra essa noção de que nós cons­truí­mos no tra­ba­lho de outros. Em vez disso, essas leis e as leis do mundo inteiro usam uma ana­lo­gia bas­tante estra­nha com res­peito a pro­pri­e­dade. As obras cri­a­ti­vas podem ser uma espé­cie de pro­pri­e­dade, mas é pro­pri­e­dade que todos nós cons­truí­mos, e as cri­a­ções somente podem enrai­zar e cres­cer uma vez que o ter­reno tenha sido preparado.

Henry Ford uma vez disse: “Não inven­tei nada de novo. Simplesmente jun­tei as des­co­ber­tas de outros homens que tra­ba­lha­ram nisso durante sécu­los. O pro­gresso acon­tece quando todos os fato­res con­tri­buin­tes estão pre­pa­ra­dos e então ele é inevitável.”

2007. O iPhone faz a sua estréia. A Apple sem dúvida nos traz esta ino­va­ção rapidamente,mas seu momento se apro­xi­mava por­que o núcleo desta tec­no­lo­gia já estava sendo desen­vol­vido durante déca­das. É o multi-toque que con­trola um dis­po­si­tivo com um toque em sua tela. Aqui está Steve Jobs apre­sen­tando o multi-toque e fazendo uma piada um tanto profética.

Steve Jobs: E inven­ta­mos uma nova tec­no­lo­gia cha­mada multi-toque. Podemos fazer múl­ti­plos ges­tos com os dedos, e gente, nós a paten­te­a­mos. (Risos) KF: Sim. No entanto, eis aqui o multi-toque em ação. Isso é no TED, cerca de um ano antes. Este é Jeff Han, e isto é multi-toque. É o mesmo tipo de coisa. Vamos ouvir o que Jeff Han tem a dizer sobre esta tec­no­lo­gia ultra moderna. Jeff Han: O sen­sor de multi-toque não é nada – não é algo novo. Quero dizer, pes­soas como Bill Buxton expe­ri­men­ta­ram com isto nos anos 80. No momento, a tec­no­lo­gia aqui não é o mais empol­gante a não ser o fato da sua aces­si­bi­li­dade ser recém-descoberta. KF: Então ele é bas­tante honesto ao dizer que isto não é novo. Portanto não é o multi-toque como um todo que é paten­te­ado. Mas sim suas peque­nas par­tes, e são nes­ses peque­nos deta­lhes onde vemos cla­ra­mente que a lei de paten­tes con­tra­diz seu pro­pó­sito: pro­mo­ver o pro­gresso das artes úteis.

Aqui está o pri­meiro ‘des­li­zar para des­blo­quear’. Isso é tudo que há nisto. A Apple paten­teou isso. É uma patente de soft­ware de 28 pági­nas, mas vou resu­mir e conto o final: Desbloquear seu celu­lar des­li­zando um ícone com o dedo. (Risos) Só estou exa­ge­rando um pou­qui­nho. É uma patente ampla.

Agora, pode alguém pos­suir esta ideia? Nos anos 80, paten­tes de soft­ware não exis­tiam, e a Xerox foi a pio­neira em inter­face grá­fica do usuá­rio. E se eles tives­sem paten­te­ado os menus pop-up, bar­ras de rola­gem, o desk­top com ícones que se pare­cem com pas­tas e folhas de papel? Teria uma Apple jovem e sem expe­ri­ên­cia sobre­vi­vido ao ata­que judi­cial de uma empresa maior e mais esta­be­le­cida como a Xerox?

Esta ideia que tudo é um remix pode pare­cer senso comum até que um remix acon­teça para você. Por exem­plo… SJ: Quero dizer, Picasso tinha um ditado. Ele disse: “Bons artis­tas copiam. Grande artis­tas se apro­priam.” Temos sido sem­pre impru­den­tes sobre o roubo das gran­des ideias. KF: O.k., isto é em 1996. Aqui é em 2010. “Vou des­truir Android por­que é um pro­duto rou­bado.” (Risos) ”Estou dis­posto a ir à guerra ter­mo­nu­clear por isso.” (Risos) O.k. em outras pala­vras, gran­des artis­tas se apro­priam, mas não de mim. (Risos)

Economistas com­por­ta­men­tais se refe­ri­riam a este tipo de coisa como aver­são à perda.Temos uma pre­dis­po­si­ção forte para pro­te­ger aquilo que sen­ti­mos ser nosso. Não temos esta mesma aver­são ao copiar o que per­tence às outras pes­soas, por­que faze­mos isso o tempo todo.

Este é o tipo de equa­ção que esta­mos vendo. Temos leis que fun­da­men­tal­mente tra­tam obras cri­a­ti­vas como pro­pri­e­dade, mais recom­pen­sas maci­ças ou acor­dos em casos de vio­la­ção, mais taxas legais altís­si­mas para sua pro­te­ção em juízo, mais envi­e­sa­men­tos cog­ni­ti­vos con­tra perda per­ce­bida. E a soma se parece assim. Essas são as ações judi­ci­ais dos últi­mos 4 anos no mundo dos smartpho­nes. Isso pro­move o pro­gresso das artes úteis?

1983. Bob Dylan tem 42 anos, e sua era de des­ta­que cul­tu­ral já pas­sou há tem­pos. Ele grava uma can­ção cha­mada “Blind Willie McTell”, em home­na­gem ao can­tor de blues e a can­ção é uma jor­nada ao pas­sado, em um período muito mais som­brio, mas mais sim­ples, um período em que músi­cos como Willie McTell tinham pou­cas ilu­sões do que faziam. “Eu tomo de outros com­po­si­to­res mas eu as arranjo à minha maneira.”

Creio que isto é o que faze­mos em geral. Nossa cri­a­ti­vi­dade vem de fora, não de dentro.Não a cri­a­mos por nós mes­mos. Dependemos uns dos outros, e admi­tir isto a nós mes­mos não é abra­çar a medi­o­cri­dade e deri­va­ção. É uma liber­ta­ção dos nos­sos con­cei­tos errô­neos, e um incen­tivo para não espe­rar­mos tanto de nós mes­mos e sim­ples­mente começar.

Muito obri­gado. Foi uma honra estar aqui. Obrigado.

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Texto do BaixaCultura, um dos prin­ci­pais sites bra­si­lei­ros sobre inter­net, cibe­ra­ti­vismo e cul­tura digital

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