¿Dónde están las his­to­ri­e­tas de nues­tros her­ma­nos? e outras ques­tões
A rica pro­du­ção de qua­dri­nhos da América Latina ainda é pouco conhe­cida no Brasil

Por Dandara Palankof
Colunista da Revista O Grito!

No último domingo, depois de pouco mais de dois meses, encerrou-se a expo­si­ção do qua­dri­nista Liniers na Caixa Cultural do Recife. Segundo a cura­do­ria do evento, mais de 30 mil pes­soas pas­sa­ram pelo local para con­fe­rir ori­gi­nais deste que é, pro­va­vel­mente, o qua­dri­nista argen­tino de maior sucesso da atualidade.

O número de visi­tan­tes só con­firma a popu­la­ri­dade do artista, mas me deixa rela­ti­va­mente sur­presa. Até por­que são raros os artis­tas con­tem­po­râ­neos da nona arte que ganham a honra de ter uma expo­si­ção em um equi­pa­mento cul­tu­ral equi­va­lente a uma gale­ria ou a um museu – e fora de seu país-natal, ainda por cima. Então, qual é a de Liniers?

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Me lem­bro que o tra­ba­lho do her­mano me foi apre­sen­tado há alguns anos, atra­vés de seu site. Não tenho cer­teza com rela­ção aos jor­nais, mas seus livros ainda não haviam sido publi­ca­dos por aqui – ali por volta de 2008. Portanto, o pri­meiro con­tato com as tiras de Liniers da amiga que me apre­sen­tou a elas, e tam­bém o meu, foi atra­vés de seu site. Um site que era muito bem cui­dado, por sinal.

E me lem­bro de não ter ficado, neces­sa­ri­a­mente, impres­si­o­nada. Achei bem bacana – pala­vra que é a tra­du­ção apro­xi­mada de sua mais famosa série de com­pi­la­ções de suas tiras, aliás – mas não neces­sa­ri­a­mente me apai­xo­nei de cara. Talvez eu esti­vesse sendo ape­nas muito cínica no momento, e o dis­curso de Liniers é o exato oposto do cinismo. Por outro lado, o impacto visual foi ime­di­ato. Seu traço é ele­gante, mas não exces­si­va­mente leve, além da colo­ri­za­ção em aqua­rela ser pri­mo­rosa. Simpatizei de cara, mas a amiga que me apre­sen­tou se apai­xo­nou. Depois, uma outra. E um outro. Quando vi, todo mundo já falava em Liniers – e até eu já tinha me ren­dido um pouco mais à sua doçura.

O sucesso foi tanto que, no ano seguinte, além da publi­ca­ção diá­ria de suas tiras em jor­nais de grande cir­cu­la­ção no Brasil, como a Folha de São Paulo, o argen­tino foi um dos con­vi­da­dos do Festival Internacional de Quadrinhos, rea­li­zado bie­nal­mente em Belo Horizonte. Tive a opor­tu­ni­dade de fazer uma breve entre­vista com ele, durante o tempo em que ele paci­en­te­mente auto­gra­fava vários exem­pla­res de Macanudo 1. Um cara muito boa praça, mesmo. Nem parece argen­tino (risos)!

De la pra cá, a popu­la­ri­dade de Liniers no Brasil só faz cres­cer, algo que pode ser facil­mente cons­ta­tado não ape­nas pela expo­si­ção que pas­sará por qua­tro de nos­sas capi­tais – e repito: são pou­cos os qua­dri­nis­tas agra­ci­a­dos com essa honra que, bem ou mal, ainda é inter­pre­tada como ver­da­deira vali­da­ção artís­tica – além da con­tí­nua publi­ca­ção de suas tiras maca­nu­das; o quinto volume da edi­ção bra­si­leira acaba de ser lançado.

Então, com todo esse sucesso – ine­ga­vel­mente mere­cido –, duas ques­tões me vem à cabeça. A pri­meira é a óbvia: qual o segredo do sucesso de Liniers? E a res­posta tam­bém não é com­pli­cada. Mas não basta dizer que o cara é talen­toso, ape­sar de isso tam­bém ser evi­dente. Muita gente talen­tosa tem obras muito menos aces­sí­veis. Primeiro, o gênero esco­lhido por Liniers. A tira foi um dos pri­mei­ros gêne­ros qua­dri­nís­ti­cos esta­be­le­ci­dos e sem­pre teve popu­la­ri­dade garan­tida, seja por­que geral­mente são humo­rís­ti­cas – o que as torna, em prin­cí­pio, mais pala­tá­veis; seja por­que demanda pouco tempo do lei­tor para que ele se agrade ou mesmo se iden­ti­fi­que com a his­tó­ria ali contada.

Mas é lógico, fazer uma boa tira é tão difí­cil quanto qual­quer outra obra – uma série delas, então, nem se fala. E ape­sar de que Liniers mos­tra, vez ou outra em que resolve expe­ri­men­tar com a lin­gua­gem em si, que domina real­mente a arte de fazer his­tó­rias em qua­dri­nhos, é mesmo o con­teúdo que lhe con­fere tanto sucesso. Um dos tex­tos na expo­si­ção afirma que Liniers faz arte para as mas­sas, sem som­bra de demé­rito na afir­ma­ção – que é total­mente verdadeira.

É muito difí­cil que alguém não se iden­ti­fi­que com a doçura de Liniers. Mesmo quando ele é um pouco menos ameno, ainda assim chega ape­nas ao agri­doce. Liniers é um con­tem­pla­dor assom­brado (porém não ame­dron­tado, e é isso que lhe con­fere leveza) dos mis­té­rios da exis­tên­cia e da com­ple­xi­dade das inte­ra­ções huma­nas. Por isso, como pou­cos, cele­bra a beleza, a ino­cên­cia, a sim­pli­ci­dade; bem como as idi­os­sin­cra­sias, os desen­con­tros, os erros – meio que com lágri­mas nos olhos e um meio sor­riso. Esses sem­pre serão temas uni­ver­sais e o artista em ques­tão tem a sen­si­bi­li­dade neces­sá­ria para nos fazer enxer­gar a vida com outros olhos, mais leves e menos embo­ta­dos pela cru­eza e pela cru­el­dade diárias.

(Afora o fato de que a inter­net é mesmo uma coisa linda. Liniers soube se apro­priar muito bem da mais livre de todas as mídias pra divul­gar seu tra­ba­lho – um para­lelo que pode­mos tra­çar com um qua­dri­nista bra­si­leiro seriam as tiras online dos Malvados, de André Dahmer. A dife­rença é que o site de Liniers, em 2008 era tão belo quanto suas tiras. Gostaria de saber a razão pela qual ele não existe mais, tendo sido tro­cado pelos fun­ci­o­nais tumblrs.)

Respondida (?) a pri­meira ques­tão, me vem à mente a segunda: são raros os casos de qua­dri­nis­tas argen­ti­nos que che­gam ao Brasil – e tam­bém de outros paí­ses do con­ti­nente. É certo que Quino tam­bém é quase uma una­ni­mi­dade, mas são pou­cos os que conhe­cem seus tra­ba­lhos que não Mafalda. Maitena teve alguns volu­mes de suas Mulheres Alteradas e gozou de certa popu­la­ri­dade, mas já há alguns anos não escu­ta­mos seu nome nem vemos novi­da­des suas nas prateleiras.

Se há algo pelo qual me recri­mino é o total des­co­nhe­ci­mento sobre a pro­du­ção qua­dri­nís­tica dos outros paí­ses da América Latina. Sei que os argen­ti­nos pos­suem muito mais do que os nomes já cita­dos; no começo do ano, foi publi­cado O Eternauta, de do rotei­rista Héctor Germán Oesterheld e do dese­nhista Francisco Solano López, do qual nunca ouvira falar (já sinto os olha­res de repro­va­ção pela minha igno­rân­cia) e tenho aqui na minha pilha de lei­tu­ras atra­sa­das um exem­plar de Mamá Pierri, de um senhor cha­mado Langer, tam­bém des­co­nhe­cido e tra­zido como pre­sente por dois ami­gos que recen­te­mente visi­ta­ram Buenos Aires. E só.

Quanto a nues­tros otros her­ma­nos, se pro­du­zem e o que pro­du­zem con­ti­nua um mis­té­rio com­pleto para mim. Também ima­gino que mui­tos ami­gos que se dizem (e o são) bons conhe­ce­do­res de qua­dri­nhos não tem idéia do que nos­sos vizi­nhos fazem ou con­so­mem nessa área. E isso é meio que recí­proco: na entre­vista que lin­kei ali em cima, Liniers diz que Angeli é quase des­co­nhe­cido na Argentina – O ANGELI!

Não que isso seja inco­mum; o inter­câm­bio cul­tu­ral com os outros paí­ses da América Latina sem­pre foi pre­ju­di­cado pelos mol­des rela­ti­va­mente res­tri­ti­vos dessa indús­tria, bem como acre­dito que, assim como no Brasil, sua pro­du­ção tenha sido pre­ju­di­cada por per­cal­ços econô­mi­cos. Mas hoje já per­cebo o cinema como prin­ci­pal ponte cul­tu­ral entre os paí­ses lati­nos – e isso pode soar bem con­tro­verso afora a memó­ria afe­tiva, mas há de se dar valor aos pro­du­tos tele­vi­si­vos mexi­ca­nos, de Chaves às nove­las. Portanto, o que falta para que o mesmo comece a se dar com os quadrinhos?

Clássico dos qua­dri­nhos argen­ti­nos, pas­sou anos des­co­nhe­cido no Brasil (Divulgação)

A Fierro Brasil, ver­são tupi­ni­quim da revista argen­tina de mesmo nome, é uma boa ini­ci­a­tiva para o prin­cí­pio de um maior inter­câm­bio qua­dri­nís­tico entre os paí­ses latino-americanos. Mas esbarra em duas ques­tões que sem­pre foram um pro­blema para edi­to­ras meno­res e qua­dri­nhos inde­pen­den­tes no país: má dis­tri­bui­ção e/ou preço proi­bi­tivo. Por serem maze­las já conhe­ci­das, pode­riam ter sido evi­ta­das, de várias for­mas (que­ri­dos edi­to­res da Zarabatana Books, podem entrar em con­tato). E há ainda os outros paí­ses da AL para serem descobertos.

Agora que as fron­tei­ras não são mais tão impos­sí­veis de serem atra­ves­sa­das, con­si­dero impor­tante que vol­te­mos os olhos para o que ainda não con­se­gui­mos enxer­gar, seja por leni­ên­cia (no meu caso) ou sim­ples inad­ver­tên­cia. Com cer­teza os qua­dri­nhos latino-americanos deve reser­var sur­pre­sas muito inte­res­san­tes para os admi­ra­do­res da nona arte e acre­dito que esteja mais do que na hora de esta­be­le­cer­mos um pro­cesso de troca mais intenso com nos­sos vizinhos.

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* Dandara Palankof é a iden­ti­dade secreta da Garota Sequencial. Diz que sua rela­ção com qua­dri­nhos é des­tino, já que apren­deu a ler com um gibi do Cebolinha. Nerd orgu­lhosa, mar­vete e edi­tora do gibi Estranhos no Paraíso, publi­cado no Brasil pela HQM Editora.”

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  • Mia

    Quais são essas qua­tro capi­tais pelas quais a expo­si­ção irá pas­sar? Já pas­sou por Rio e Recife, e as outras duas são …?

  • http://www.limarte.tumblr.com Lima

    Parabéns por mais uma maté­ria ins­ti­gante Garota Sequencial. De onde vem seus super pode­res? O Eternauta é um qua­dri­nho pri­mo­roso. Recomendo. H.G. Oesterheld tra­ba­lhou, fazendo qua­dri­nhos de guerra, com Hugo Pratt, quando este morou na Argentina. Oesterheld foi uma das víti­mas da dita­tura mili­tar na Argentina e TODA a famí­lia é tida como desa­pa­re­cida. Pratt e Solano Lopez par­ti­ci­pa­ram de cam­pa­nhas para pres­si­o­nar os mili­ta­res a divul­ga­rem o des­tino de seu colega de tra­ba­lho e outros desa­pa­re­ci­dos da dita­dura. Esse belo car­taz foi feito por eles http://rae.radionacional.com.ar/files/2012/07/Oesterheld-donde-est%C3%A1.jpg
    No mais, o pes­qui­sa­dor e jor­na­lista do Blog dos Quadrinhos, Paulo Ramos, publi­cou um livro sobre o qua­dri­nho argen­tino pela Zarabatana Books. O Bienvenidos.