Bem sucedido, inteligente, culto, sarcástico, egocêntrico, arrogante. Este é Asterios Polyp, arquiteto que tem sua casa incendiada por um raio justamente no dia em que completa 50 anos.

O incidente faz com que ele parta, desprovido de recursos, em viagem para uma cidade simples, uma vida simples, um trabalho simples – uma busca por si mesmo, uma reflexão sobre tudo que o fez chegar até aquele ponto.

O enredo principal é intercalado por flashbacks que ilustram a trajetória de Asterios desde o nascimento, sua carreira, casamento e divórcio. O improvável narrador destas passagens é o irmão gêmeo natimorto de Asterios, Ignazio.

A “presença” deste irmão que nunca existiu, mas que insiste em povoar seus pesadelos, explica muita coisa sobre o Asterios – sua visão binária de um mundo formado por opostos e a estranha sensação de estar vivendo a vida de outra pessoa.

Entre muitas referências artísticas e filosóficas, uma premissa interessante do livro é a de que as pessoas são feitas de diferentes padrões e que, em alguns casos, conseguem projetar seu padrão sobre outras, influenciando-as ou, no melhor dos casos, mesclando-se a elas.

Não bastasse a intensidade do roteiro, Mazzucchelli transgride a linguagem dos quadrinhos utilizando as próprias ferramentas do meio. Em Asterios Polyp, todos os recursos gráficos estão a serviço da narrativa.

O formato dos balões e o tipo das letras dizem muito a respeito dos personagens; molduras e cores – ou a ausência delas – acentuam as situações do roteiro; em momentos de tensão ou ternura, os tais “padrões” de que são feitas as pessoas ficam mais evidentes; um holofote imaginário conduz o leitor a quem é o centro das atenções.

Apesar da aparente complexidade, a leitura flui naturalmente e convida a novas releituras para que se descubram detalhes até então despercebidos.

Asterios Polyp é uma história de redenção. Assim como Orfeu, o protagonista desce ao inferno para recuperar sua amada – com a diferença que, neste caso, olhar para ela pode significar sua própria salvação.

O livro foi lançado no Brasil numa edição caprichada pela Companhia das Letras no mês passado. Tem 344 páginas, formato 19,7 x26 cm, capa e miolo coloridos e preço de R$ 63,00. Vale o investimento.

Papo de Quadrinho recomenda duas ótimas resenhas sobre o livro: a de Érico Assis, no blog da Companhia das Letras, e a do Delfin, no site Universo HQ.