“Para além dos extremos de que nosso mundo é formado, abrem-se conhecimentos novos, outros” – Herman Hesse, 1919

 Por Gabi Franco especialmente para o Papo de Quadrinho

Fui apresentada ao marinheiro Corto Maltese aos 12 anos, quando, fuçando nas obras que meu pai usava como referência para seus desenhos, encontrei “A Balada do Mar Salgado”.

Na época eu não sabia, mas o título foi seu dèbut nas graphic novels, já que suas histórias foram originalmente publicadas em fascículos em revistas européias dos anos 1960 como Sgt Kirk e Píf Gadget. Aquela narrativa recheada de ação, aventuras, referências históricas e dezenas de personagens interessantes me conquistou e foi paixão à primeira leitura.

Corto é um personagem irresistível. É um marinheiro boa pinta, nascido em Malta, filho de um marinheiro inglês e de uma cigana espanhola, já nasceu com o wunderlust nas veias: O desejo de viajar, desbravar lugares insólitos, conhecer pessoas e culturas diferentes e traçar seu próprio destino.

Não faz o gênero super-herói; está mais para um anti-herói esperto, que faz amizades e cria laços com pessoas de índole duvidosa, mas sempre mantém controle da situação. Como um bom marinheiro dos anos 1930 ou 40, época em que suas aventuras se passam, Corto Maltese é curioso, burla regras, mente e engana, de leve, mas acima de tudo, tem um coração de ouro.

Já contracenou com personagens como os escritores Jack London, Ernest Hemingway, James Joyce, Herman Hesse, com o caubói Butch Cassidy, o Barão-Vermelho (Manfred von Richthofen — célebre piloto da I Guerra) dentre outras figuras históricas, fictícias ou não, o que tornam suas aventuras ainda melhores.

Seu criador, Hugo Pratt, escreveu até um enredo ambientado no Brasil: Sob o Signo de Capricórnio que leva Corto à uma Bahia encantada e cheia de segredos, numa honrosa homenagem de Pratt à nossa terra.

Agora, Corto volta em mais um caso inédito, desta vez na Bretanha e Suíça, local onde Pratt morou durante grande parte de sua vida e faleceu em 1995.

Corto Maltese e As Helvéticas começa com o marinheiro acompanhando seu amigo, o Professor Jeremiah Steiner, até a Suíça à procura do escritor Herman Hesse, a fim de realizarem juntos uma pesquisa sobre o alquimista Paracelso. Durante a noite, enquanto lê o romance clássico Parsifal (no qual foi baseada a ópera homônima de Richard Wagner), Corto se vê transportado para dentro da história, ambientada na Idade Média e ali se envolve com cavaleiros, feiticeiras, Santo Graal e até com a Morte, passando por toda a iconografia medieval.

Uma mistura entre sonho e magia, através de lendas e sociedades secretas, As Helvéticas é uma lúdica charada que nos leva à busca do Santo Graal, como símbolo de auto conhecimento. Um convite sedutor para que decifremos o enigma da “rosa alquímica”.

Este gibi também vai agradar quem curtiu obras como: “O Código DaVinci”, “ O Pêndulo de Foucault” e “O Nome da Rosa.

Por fim, vale destacar também a introdução preciosa de Marco Steiner, poética e bem ilustrada, com belas fotos que nos transportam imediatamente aos ambientes em que se passa toda a narrativa.

“Corto Maltese – As Helvéticas” de Hugo Pratt (Editora Nemo) tem 96 páginas + capa cura, traduzido por Reginaldo Francisco e preço de R$ 49,00. Vale MUITO o investimento.